Neologismo e estética dos indignados nos protestos em Natal

Edilson Freire analisa o movimento social que saiu das redes e foi para as ruas, durante o ano de 2012 – e que segue em 2013 questionando as bases materiais de exploração dos fluxos da cidade, e sua gestão violenta da vida da população. 

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Por Edilson Freire Macial

Revolta do busão

Esse foi o neologismo usado pelos estudantes para caracterizar o movimento contra o aumento abusivo e ilegal das passagens do transporte coletivo em nossa cidade.

A etimologia deriva do latim, omnibus: para todos, ônibus, busão. Representa signos caóticos da urbe, legitimados, dessa forma, pela precarização dos serviços prestados à população através do sistema privado SETURN, o promitente concessionário da exploração das linhas viárias do perímetro urbano de nossa cidade.

Além da má prestação dos serviços de transporte em todos os níveis, a população padece sob uma política voltada para atender aos interesses de pequenos e poderosos grupos econômicos, num relacionamento indiferenciado de público e privado, que acabam por atentar contra os interesses da maioria da sociedade.

Tal conspiração entre o ente público e o privado resulta em prejuízos para as necessidades essenciais da população, tornando esses serviços inexistentes ou, quando existem, sucateados, construídos para não funcionar. Tudo seguindo a lógica perversa de um capitalismo de raízes culturais escravistas, em que a coisa pública, o faz de conta, na exemplificação do transporte público, transforma-se na metáfora da senzala: espaço coletivo de acondicionamento de corpos roubados ,nas suas identidades históricas e individuais.

Dessa forma, apinhados qual sardinha enlatada, numa arquitetura despojada de frisos e arabescos, sem eira nem beira, semelhante ao alojamento de escravos nos terreiros da casa grande, ilhados pelos canaviais.

O capitalismo desenvolvido nos trópicos, de herança colonial, tem a dicotomia ideológica escravista, centrada no referencial geográfico de classe: o centro e a periferia. O centro, onde se concentra o comércio e a infraestrutura. A periferia, carente da infraestrutura existente no centro, abriga a classe trabalhadora com sua atividade laboral no centro da cidade. O centro, para manter sua dinâmica comercial, necessita do fluxo de trabalhadores e clientes; para tal fim, depende do transporte público e vias descongestionadas.

Isso demonstra que vários fatores influem no equilíbrio de interesses dos que habitam a cidade, recaindo sobre os trabalhadores a exigência de fornecer todo o seu tempo, necessário e excedente, como força de trabalho para a produção, acarretando-lhes “stress” e cansaço, o que, por sua vez, influi negativamente no desempenho produtivo ou causando atraso para se chegar ao lugar de trabalho, obrigando-os a compensar com horas extras as horas “não trabalhadas”.

Parte dessa gama de necessidades a suprir-se se inscreve na atual conjuntura da Copa do Mundo, a realizar-se em vários estados do país, num projeto de mobilidade urbana que contempla a ampliação de avenidas, construção de viadutos, túneis, instalação do VLT – veículo leve sobre trilhos e construção de ciclovias.

O conceito de mobilidade urbana em questão é hegemônico, voltado a atender às necessidades imperiosas do atual modelo econômico, que prioriza um projeto urbanístico em função do automóvel, além de excluir do processo de discussão as representações populares e suas demandas.

O conceito de mobilidade urbana, segundo a ótica popular, tem como objetivo principal o acesso da sociedade aos centros urbanos, projetados para suas diversas funcionalidades, com foco na democratização e socialização do espaço público, proporcionando qualidade de vida à população. A razão das cidades está centrada nas relações humanas e no prazer do espírito, ao contrário da distopia vigente que predomina nos grandes centros, voltada e planejada exclusivamente para atender às necessidades do mercado.

A heteronomia do espaço é ditada de acordo com a sociedade de consumo. Essa determina, exerce o seu poder sobre os espaços arquitetônicos de entretenimento, confinamento e exclusão, dando-lhe legitimidade política, social, jurídica e científica na criação do senso comum.

A Revolta do Busão sacudiu a estética narconormatizada da cidade, ao provocar a reação das massas, através da ruptura revolucionária de seu quotidiano insípido, instrumentalizado por uma sociedade capitalista que coloniza os seus desejos.

Ao ocupar as ruas com bandeiras, faixas, cartazes, indumentárias pró-Primavera Árabe, apitaço e batucada, os manifestantes exerciam o acesso pleno à cidade, motivados pela indignação, ao invocar o direito legítimo e democrático de ir e vir, na luta contra o aumento ilegal e extorsivo do preço das passagens.

O dito “estado mínimo” neoliberal, comprometido com a ordem hegemônica do capital, logo se fez presente, maximizando-se, no restabelecimento da “ordem”, por meio de seu sistema de difusão do medo, da repressão, de seu aparelho ideológico de estado, a imprensa, que criminalizava os manifestantes, na tentativa de intimidá-los e desmobilizá-los.

Imbuídos dos conceitos universais de liberdade, direito e democracia, os estudantes, na sua luta, diziam não ao medo, ao ocupar a Câmara Municipal, no dia da votação sobre a legitimidade, ou não, do aumento das passagens. Assim obtiveram vitória parcial, pois o sindicato dos empresários de transportes coletivos, ao ser derrotado na Câmara, recorreu à justiça, e, em represália suprimiu as estações de transferências, causando intranquilidade social na cidade.

Os estudantes responderam às escaramuças dos que transitam frequentemente de forma promíscua nos escaninhos do poder, ao saírem às ruas pelo retorno das estações de transferência. Ao ocuparem a BR 101, a comissão de segurança do movimento foram presos sob a alegação de desacato à autoridade por chamarem os policiais rodoviários federais de fascistas. O movimento ficou acéfalo. Ações pré-determinadas em assembleia não estavam sendo cumpridas, fugiam aos propósitos do movimento, dispersando-se após o roletaço dos estudantes em frente ao Natal Shopping e Via Direta, para o retorno às suas casas.

Um pequeno grupo rumou ao Midway Mall onde houve violência policial. Tiros de balas de borracha e cacetadas. Um ônibus é incendiado. Um professor de história é espancado e preso sob a acusação de ter causado o incêndio. Na mesma noite, um grupo de pessoas ateia fogo a um ônibus no terminal do Bairro Nordeste, Zona Oeste da cidade.

A imprensa reacionária, sempre parcial, criminaliza o movimento. A polícia aterroriza com ameaça de prisão, como se sua função não fosse de xeretar, afirma que irá monitorar as redes sociais e punir aqueles que, nas redes, difundirem a violência.

A justiça dá o veredito contra o aumento das passagens e a suspensão das estações de transferência, sob a alegação de crime contra a economia popular. Encerra-se a primeira fase da luta, que tem como princípio, o MPL. – Movimento Passe Livre, como direito social extensivo a toda sociedade, segundo o conceito popular de mobilidade urbana: investimento no transporte público de qualidade, acesso e apropriação do espaço público no sentido do direito à cidade, que hoje é negado a mais de quarenta milhões de pessoas, privadas desse direito fundamental de ir e vir, por não poderem pagar passagem de ônibus.

Qual estética e neologismo motivarão as próximas utopias dos indignados em Natal?


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