O regresso da fábrica: território, arquitetura, operários e capital

Por Pier Vittorio Aureli | Trad.: João Santos

youth

O regresso da fábrica. Apontamentos sobre território, arquitetura, operários e capital.

Na história do movimento operário, a fábrica desempenhou um papel fundamental e por vezes épico na coagulação entre a exploração dos trabalhadores e a luta destes contra a sua condição. É por essa razão que o aparente desaparecimento da fábrica como ponto avançado do capitalismo no mundo desenvolvido tem sido muitas vezes interpretado como o puro e simples desaparecimento da classe trabalhadora, como um importante bloco da sociedade. Se esta interpretação segue a realidade da tendência industrial dos últimos quarenta anos, com a passagem da hegemonia do trabalho material para o trabalho imaterial, esta também deu origem a uma visão da fábrica como espaço fechado em si, como um local específico da produção de bens materiais. No entanto, o marxismo dos anos 70, e especialmente o operaísmo, levou, entre outras coisas, à redescoberta da fábrica como um campo alargado, que engloba toda a sociedade e o seu funcionamento.

Operários e Capital de Mario Tronti é certamente um livro difícil de separar do contexto da fábrica fordista. No entanto, mesmo no início do último século, este tipo de fábrica ia para além das suas fronteiras, pois, para funcionar, tinha que subordinar aqueles que lá trabalhavam, tinha que estender os círculos sociais: casa, escola, saúde, tempo livre. É precisamente pela capacidade de compreender esta passagem que o livro de Tronti teve uma certa ressonância na cultura arquitetônica na Itália entre os anos 60 e 70. As teses deste livro influenciaram, entre outros, o projeto critico e historiográfico de Manfredo Tafuri e o trabalho do coletivo Archizoom. Entre os militantes operaístas, encontravam-se sociólogos, arquitetos e urbanistas como Romano Alquati, Claudia Greppi, Alberto Magnaghi e Paolo Deganello, que se interessavam precisamente sobre o papel das lutas no desenvolvimento urbano e do território em torno da fábrica, ou seja, a fábrica «social», a expansão da exploração capitalista e do conflito de classe1.

Apesar de Operários e Capital ter sido publicado no pico do desenvolvimento da fábrica fordista, cuja estrutura seria colocada em crise pelas lutas dos trabalhadores, o modo como o livro contextualiza a relação fábrica-sociedade vai para além da sequência estrita do “fordismo”/ “pós-fordismo” a partir do qual foi pensado o desenvolvimento das formas de trabalho.

Assim, mesmo que Operários e Capital seja lido a partir da perspectiva da centralidade da fábrica enquanto espaço de produção, a fábrica é teorizada enquanto dispositivo que liga trabalho à res extensa da valorização social, o que equivale a definir a fábrica como dispositivo através do qual toda a sociedade é posta a trabalhar. Começando a partir desta interpretação das teses de Tronti, proponho uma releitura da longa história do território que vai da metrópole moderna até a urbanização planetária, procurando no conceito de fábrica um paradigma para compreender a condição urbana contemporânea.

1. No livro Großstadt Architektur, publicado em 1927, o arquiteto alemão Ludwig Hilberseimer sustentava que com o advento do capitalismo a cidade rompia de forma resoluta com a história milenar e apresentava-se como algo completamente novo: a Großstadt precisamente, a grande cidade, a metrópole2. Neste tipo de cidade, qualquer continuidade com o passado era impossível para Hilberseimer. O capital impõem à cidade não tanto um aumento em escala, mas uma diferente configuração que a torna incompatível com as formas urbanas tradicionais.

Assim, pode-se argumentar que o advento do capitalismo coloca um fim à cidade enquanto entidade politicamente soberana (civitas), sendo substituída por uma máquina económica em que cidade e território, dentro e fora, são integrados num sistema totalizador. Se a cidade enquanto centro sobrevive, é apenas como fetiche, como símbolo, como alavancagem máxima para a renda.

Antes de Hilberseimer, foi o engenheiro espanhol Ildefonso Cerdà, autor do famoso plano urbano de Barcelona em 1859, quem argumentou que, com o advento do desenvolvimento industrial, o conceito de cidade enquanto civitas era agora anacrónico. No seu importante trabalho A Teoria Geral da Urbanização publicado no mesmo ano que O Capital de Marx, 1867, Cerdà já considerava que o termo cidade deveria ser substituído pelo neologismo urbanização, ou seja, um espaço onde a circulação de propriedade e pessoas tomaram precedência sobre todas as outras dimensões do espaço habitado3. O que caracteriza a teoria urbanista de Cerdà é o papel central que este atribui ao estudo da população a partir das condições de produção – reprodução da força de trabalho. Cerdà é o primeiro planejador urbano a basear o seu projeto urbano em fontes estatísticas, otimizando assim a reforma urbana na base das condições de vida da sociedade e da sua capacidade produtiva. Por esta razão, como notou Andrea Cavalletti, o engenheiro urbano espanhol é o herdeiro de um conhecimento urbano desenvolvido sob o signo de Polizeiwissenschaft e onde a segurança, medicina e economia se fundem em práticas de governo do território4.

Teorias como as de Cerdà postulavam que a cidade enquanto entidade diferenciada do território deixou de existir, substituída por um sistema deslocado, sem um real exterior, potencialmente extensível ao infinito e cuja função não é mais produzir uma forma, mas ser um processo, uma máquina em moção que liga, dentro do aparato, circulação e habitação. É interessante notar no texto que a historiografia arquitetônica sempre considerou a carta magna do urbanismo clássico – nomeadamente a Carta de Atenas, elaborada no Congresso de Arquitetura Moderna (CAM) em 1933 e escrita por Le Corbusier- uma grande ênfase no elo entre produção e vida enquanto principal objetivo do planejamento da cidade. Apesar da Carta de Atenas propor uma divisão entre várias funções – tráfego, trabalho, habitação, tempo livre, etc. – esta separação funcional era operacional numa escala macro, possibilitando uma integração mais eficiente destes momentos num sistema urbano em que todos os aspectos da vida urbana se fundavam num mesmo processo de reprodução social.

Para Le Corbusier, como para Cerdà ou Hilberseimer, o organismo urbano não podia ser mais pensado a partir das formas tradicionais de cidade, ou seja, pensado como oposto ao que o rodeia – o espaço rural ou os subúrbios – mas constituía-se enquanto nova entidade, neste caso enquanto território urbano.

Apesar de um horizonte reformista limitado, que pretende domar as forças da metrópole dentro da utopia racionalista do plano, estas abordagens territoriais trazem alguma luz sobre algo que, desde aquela época, foi além da razão do plano, uma nova paisagem, inédita, sempre em movimento, e como tal desconcertante. Esta paisagem é a urbanização entendida enquanto processo irrefutável, e portanto privada de uma forma definitiva. A experiência subjetiva desta paisagem era entendida apenas por aqueles que tinham estabelecido uma relação com o “pensamento negativo” da metrópole moderna, ou seja, Georg Simmel e a relação entre circulação do dinheiro e a experiência do espaço urbano que é teorizada: Max Weber, com a sua análise da cidade enquanto máquina de acumulação de poder político e econômico; Walter Benjamin e a sua análise da arquitetura das grandes metrópoles do século XIX enquanto fantasmagoria que concilia, mistifica o conflito de classe. O que era comum entre estes pensadores e a sua leitura da metrópole é o esforço para dar forma a uma subjetividade desencantada, uma forma de ser que está no auge na metrópole do capital.

2. Hoje em dia, somos levados a olhar para estas “descobertas” da metrópole enquanto evidência. Metrópole e Großstadt soam a obsoleto, termos vintage, uma vez que estamos acostumados a muitas outras categorias de espaço urbano como cidade difusa, favelas, urbanização planetária, capitaloceno. E ainda assim no campo do pensamento urbano poucos conseguiram problematizar a relação entre capital e a forma urbana, para além dos fenômenos mais visíveis e óbvios como a especulação, renda e gentrificação. A ideologia burguesa das ciências sociais permearam tanto o urbanismo que a história da cidade tem sido melhor concebida em termos de um processo tecnológico inexorável, uma inevitável expansão do urbano, resultado inexorável do desenvolvimento das forças produtivas mais do que uma convulsão estrutural que altera a composição física, social e política daquilo que continuamos a chamar cidade. Convulsão aqui significa revolução e não evolução, porque – é bom lembrar – a metrópole do capital não nasce do seu próprio espírito empreendedor como muitas histórias da cidade moderna nos dizem, mas de lutas e tumultos dos oprimidos e os adversários destes, ou seja, a contra- revolução, o estado de exceção político e econômico que o capital estimula de forma a manter a paradoxal ordem das coisas, ou seja, uma ordem fundada na desordem. A desordem na metrópole capitalista resulta assim não num “erro” de processo, uma condição padrão como o urbanismo reformista teorizou. A desordem da cidade capitalista é o resultado do permanente estado de guerra necessário ao capital para controlar e restringir o trabalho e os seus próprios subalternos.

Esta é a tese central de Operários e Capital de Mario Tronti – primeiro as lutas, depois o desenvolvimento – também se aplica ao nascimento e desenvolvimento da cidade moderna: primeiro as lutas, depois da cidade, o projeto, as suas transformações e a sua arquitetura. O projeto da cidade moderna não é nada mais do que a resposta do capital ao conflito de classes. Le Corbusier tinha compreendido quando colocou as autoridades face a um dilema: arquitetura ou revolução5.

A revolução de que falava Le Corbusier era o espectro da revolução bolchevique de 1917, que em pouco tempo irá forçar os capitalistas a repensar a composição política do comando sobre o trabalho dando vida ao Estado Social. Mas no fundo, a revolução evocada por Le Corbusier não era mais do que a ameaça da força de trabalho rebelde contra a sua própria exploração, uma ameaça que, como afirma Tronti, está presente dentro do desenvolvimento do Capital desde que não é mais do que a exploração do trabalho vivo. Do ponto de vista dos governos e dos capitalistas a revolução de classe seria algo para afastar mas também para usar de acordo com os seus próprios interesses, dado que, desde os tumultos das cidades comunais do século XIV até às revoluções nas grandes metrópoles do século XIX, o confronto de classe sempre marcou o início dos grandes projetos de transformação urbana.

Assim, não é apenas pelo desejo tecnocrático que a arquitetura da fábrica chega, com os arquitetos do Movimento Moderno como Le Corbusier, Hilberseimer, mas também Ludwing Mies ven der Rohe, ao paradigma arquitetônico a partir do qual a nova arquitetura é definida. Para os arquitetos modernos a fábrica não é apenas a metáfora de uma era de máquinas, mas é uma fonte verificável de soluções técnicas para estender a toda a arquitetura da cidade. O uso do ferro e cimento armado, padronização e pré-fabricação de elementos construtivos, técnicas desenvolvidas na arquitetura da fábrica do século XIX e XX são usadas por arquitetos modernos em todos os campos da cidade e território: desde habitação à infraestrutura, edifícios públicos ao design de interior. Considere-se por exemplo, o arquiteto austríaco Margarete Schutte-Lihotzky que desenha a celebrada “cozinha de Frankfurt”, através da aplicação de critérios de medição e coordenação de trabalho de fábrica no trabalho doméstico.

A metrópole e o seu território tornam-se assim uma linha de montagem de “fatos sociais” para parafrasear o título de No-Stop City, projeto famoso de 1970 através do qual o grupo Archizoom desenvolveu as teses de Operários e Capital. Muito antes de se começar a falar de “fábrica difusa” e de “operário social”, a metrópole moderna já havia há muito estendido a fábrica a toda a sociedade

3. A fábrica é assim não apenas um lugar específico da cidade moderna, mas um conceito baseado na ideia de metrópole enquanto organismo flexível e infinitamente extensível cujo papel é reproduzir e organizar o trabalho vivo. Originalmente a palavra fábrica significa edifício, não tanto no sentido de forma de edifício mas como aparato, máquina ou artifício.

O senso comum entende a fábrica como um lugar circunscrito onde ocorre a produção de certos bens. O pensamento político tem considerado a fábrica como a transição para um capitalismo maduro que marca o fim das formas tradicionais de manufatura para substitui-la por um sistema mecânico em que não são mais os trabalhadores que usam as máquinas, mas estas que usam os trabalhadores. Na verdade, a fábrica tem uma história muito mais complexa e irredutível a estereótipos que tentaram representar a sua evolução. A fábrica não é um edifício ou um lugar mas antes um conjunto de máquinas, um diagrama espacial cuja função é adaptar o espaço físico à composição técnica que torna possível o trabalho produtivo e a sua exploração. A fábrica é assim, não uma forma definitiva, mas antes, é um processo em perpétua transformação, a partir de um centro, por vezes estrategicamente recolocado, enerva e organiza o território. Se existe uma fábrica, é uma rede logística que coordena máquinas, transportes, fluxos de pessoas, matérias-primas, bens: o campo de aplicação da fábrica é sempre o território.

Em princípio, as factories eram estruturas leves, anônimas, posicionadas ao longo dos eixos militares e comerciais para facilitar a colonização de terras indígenas. Como observado por Carl Schmitt, ao contrário do colonialismo espanhol e português baseado na conquista e divisão de grandes espaços, o colonialismo inglês foi um processo de apropriação capilar, com base na criação de infraestruturas, canalizações, estruturas logísticas, tratados comerciais e que produziu uma cartografia e medições precisas dos recursos naturais a ser explorados6.

Apesar da fábrica ser associada com a transição da manufatura para a indústria, a sua profunda natureza logística deriva precisamente das suas origens na colonização e na gestão do território agrícola. O termo factory deriva do latim facere, fazer, e tem origem em factorium (do qual também deriva o termo fattoria [fazenda]), ou seja, o moinho, mas também o posto dos agricultores a quem o proprietário confia a gestão do território agrícola. Na Idade Média, a fábrica era um espaço de encontro para os comerciantes e empresários ricos que viajavam numa terra estrangeira, com uma loja e um mercado7.

A etimologia do termo mostra-nos que o conceito de fábrica sempre investiu o território enquanto espaço a ser controlado e possuído. Mas na fábrica esta posse não é apenas militar como no castrum ou no forte. É essencialmente logística e extrativista. Basicamente, o próprio termo territorium, como Cícero escreve, refere-se à posse da terra, a área de influência de uma instituição ou comunidade. O colonialismo estende esta influência da terra ao mar ao transformar este último no paradigma geográfico da modernidade por antonomásia. Em Princípios da Filosofia do Direito, Hegel argumentou que a história da civilização europeia pode ser vista como um conflito entre a terra e o mar, o seja, entre a estabilidade da família e a cidade e os campos abertos, móveis e incertos do comércio marítimo. O ethos do mar é a indústria no primeiro sentido da palavra, i.e destreza, solicitude, capacidade para inovar, para lidar com situações incertas e desfavoráveis. O colonialismo dos últimos cinco séculos constituiu assim o laboratório para técnicas de apropriação, o que, com o nascimento da grande indústria, foi reinvestido no território dos colonizadores. Não é coincidência que o capitalismo industrial tenha nascido em Inglaterra, a primeira nação a fazer do mar um espaço de expansão imperialista. A tão chamada “revolução industrial” não foi mais do que um processo interno de colonização do continente europeu, uma colonização que para funcionar havia que – imediatamente – colocar a trabalhar não apenas os trabalhadores mas toda a sociedade.

4. Com o seu desejo de contextualizar o sistema fabril e não relegá-lo para um estatuto de fetiche tipológico ou tecnológico, Operários e Capital oferece-nos um quadro categorial que ainda é efetivo. No capítulo ” A Fábrica e a Sociedade” (publicado em 1962 em “Quaderni Rossi”), Tronti escreve que, se durante o processo laboral o capital é comando sobre o trabalho, é apenas no processo de valorização – ou seja, no interior da sociedade – que o capital desenvolve o seu poder de coerção que força os trabalhadores a render-se à exploração9. ” O capital consegue captar, de um modo muito peculiar, para si mesmo a unidade do processo de trabalho e o processo de valorização: e quanto mais a produção capitalista se desenvolve, mais a forma capitalista de produção toma conta de todas as outras esferas da sociedade, invadindo completamente a rede de relações sociais”10. O que é salientado nesta passagem é o processo de “fabriquização” da sociedade: a fábrica está indubitavelmente ligada ao território e desta maneira às formas de vida.

Como Tronti nos recorda, Marx regressa ao processo de colocar a sociedade a trabalhar como a passagem crucial da regulação da jornada de trabalho, quando passa da mais-valia absoluta à mais-valia relativa. Pressionado pelas lutas laborais, o capital não se pode contentar em explorar o trabalho como o encontra, mas deve moldar o processo de trabalho “à sua própria imagem”, isto é, ao colonizar todos os momentos da vida ao determinar a temporalidade e a espacialidade.

A regulação do dia de trabalho é assim um dos modos através do qual estado, sociedade, público, privado, trabalho, vida, tempo e espaço se fundem com o capital até à construção de um continuum de exploração. É por isso que o território se torna – como Tafuri afirma em Per una critica dell’ideologia architettonica – uma máquina para a extração de mais-valia de todas as relações sociais11. Ruas, habitação, ferrovias, parques, equipamentos de “tempo livre”, mas também planejamento, rendimento, especulação imobiliária, trabalho público, infraestruturas de todo o tipo, são implementadas não apenas como momentos do processo produtivo mas também como aparatos de captura e organização da vida humana. No entanto, é precisamente no momento em que percebe este relacionamento entre coisas sempre de forma cada vez mais orgânica e totalizante, que o capital tem sucesso em mistificá-lo e, por assim dizer, torná-lo invisível. Tronti observa que, desde que toda a sociedade é absorvida pela produção capitalista, a fábrica desaparece paradoxalmente, e é nesse momento que a ideologia burguesa se realiza completamente, ou seja, hipostatização do “social” como algo em que a força de trabalho é considerada apenas como um momento da vida social12.

O desaparecimento da fábrica na sociedade no momento em que toda a sociedade se “fabriquiza” não é apenas o que teria acontecido logo após Operários e Capital, nomeadamente a recolocação da fábrica e a informatização do comando sobre o trabalho. Também consiste, acima de tudo, na ocultação pelo capital daquilo que o operaísmo feminista, logo após a publicação de Tronti, define como arcano da reprodução, isto é, a exploração do trabalho reprodutivo e emocional necessário à formação da classe trabalhadora13. Em suma, na fábrica que se torna sociedade, não são apenas os trabalhadores masculinos, mas também, como Leopoldina Fortunati escreveu, donas de casa e prostitutas cujo trabalho foi escondido durante anos e explorado no interior da formidável invenção burguesa que é o lar enquanto “refúgio privado” e lugar de não-trabalho.

5. Colocado neste contexto, Operários e Capital captura uma passagem fundamental que ainda hoje é uma névoa na transição clara entre Fordismo e pós-fordismo sobre a qual tanto a tradição operaísta e pós-operaísta insistiu. A fábrica social, o colocar a sociedade a trabalhar a partir da sua própria reprodução, a cada vez maior unidade orgânica entre os processos de trabalho e processos de valorização e o papel das lutas enquanto energia propulsora destes processos, não faz mais que reforçar aquilo que é chamado “pós-fordismo” mas que já está presente em embrião nos processo de urbanização que, a partir da Idade Média, deu forma ao território europeu e depois ao planeta inteiro. O chamado “Renascimento” (não coincidentemente cunhado pela cultura burguesa do século dezenove para mistificar a origem conflitual do seu próprio poder de classe) não é mais que o início dessa grande contrarrevolução capitalista cujo objetivo era compelir massas de pessoas a tornarem-se trabalhadores assalariados. No Capital, Marx reconta o momento original – o pecado original – do processo, revelando a violência da acumulação primitiva, isto é, a apropriação da terra comum pelos primeiros proprietários que constrangeram massas de pessoas a vender a sua força de trabalho na cidade. É nesta passagem histórica violenta que o proletariado é formado, sendo este constituído historicamente antes do sistema capitalista. Como Tronti escreve: primeiro o proletariado, depois a força de trabalho; primeiro os operários politicamente como classe, depois o desenvolvimento capitalista.

Operários e Capital lembra-nos que a relação de classe entre aqueles que vendem e aqueles que compram a força de trabalho é a fundação da relação capitalista. Esta relação toma forma na Idade Média quando trabalhadores expropriados começam a ameaçar não apenas os patrões, mas também os governos municipais e as corporações que defendem os direitos dos trabalhadores-empreendedores, os futuros empregadores. As “grandes” corporações, isto é, as primeiras instituições políticas da burguesia atacaram os magnatas que ameaçavam o poder democrático das primeiras comunas, mas reprimiram o novo proletariado urbano, a real força de trabalho necessária para a formação do capital. O que é a invocação da antiga Roma, que marcou tanto as artes do Renascimento, que não a criação do mito de Pax Romana contra os bárbaros trabalhadores tumultuosos que perturbam a ordem da civitas medieval?

Ciência, cultura, civilização renascem no século XV não como humanismo mas como consequências do antagonismo entre a classe dos capitalistas e a classe trabalhadora. Frente a este antagonismo, a classe capitalista não tinha escolha: a cidade e o território devem ser concebidos enquanto sistema. A cidade ideal renascentista, com estas praças geométricas e ruas retas, não significa mais do que exorcizar o conflito e promover a sublimação ideológica da necessidade de um controle extensivo do espaço.

Os mecanismos sociais entram em cena, com o papel de capturar e colocar o corpo social a trabalhar. Já no século XVI Sebastiano Serlio incluiu no seu tratado sobre habitação – o Libro VI, Sulle Habitationi di tutti li gradi de gli huomini – modelos de habitação não apenas para os tiranos ou os ricos mas também para os camponeses pobres e artesãos. Os últimos constituindo uma força de trabalho essencial que devia ser resgatada da mendicidade e inserida na rotina doméstica, com a propriedade privada das suas casas.

Em seguida surge a invenção da perspetiva, que é o fruto não tanto da vontade de representar cientificamente o espaço tridimensional na superfície bidimensional da imagem pintada, mas o desejo de possuir em toda a sua extensão o espaço da experiência, ao dar a esta última uma medida determinada e científica. A representação em perspectiva, de fato, pressupõe a revelação topográfica do território que é apenas possível através de uma concepção matemática do espaço entre as coisas. Basicamente, a abstração real do dinheiro enquanto padrão universal em que todas as coisas se tornam mercadoria nasce da mesma abstração do espaço perspectivado em que tudo deve ser potencialmente cognoscível por um sistema geral e determinado, como se tudo devesse ser integrado na lógica de valor de troca.

Como o historiador de arte Marvin Trachtenberg observou, a evolução da ciência perspectiva na Idade Média recebe um impulso decisivo através das tentativas de reforma do espaço urbano avançado pelas autoridades das cidades comunais contra a instabilidade que ameaçava a eficiência do seu governo14. Não é coincidência que, entre o século XIV e o século XV, Florença se torne o epicentro desta concepção revolucionária do espaço e do território: era nesta cidade que no século XIV se sucederão contínuos conflitos sociais como o famoso tumulto de Ciompi em 1378, a primeira revolta operária na história, precisamente porque, como escreveu Ernesto Screpanti, esta foi um grandioso exemplo de revolução do operário moderno que despontou no centro de desenvolvimento capitalista mais avançado na sociedade daquele tempo15.

Neste contexto conflitual, a arquitetura desempenha um papel fundamental ao constituir-se a si mesma enquanto disciplina ao serviço da governança urbana, distinguindo-se da atividade artesanal da construção e ao investir o seu próprio conhecimento através do cálculo e projeto. Se por um lado a arquitetura é um projeto de monumentos que serve para demonstrar a ideologia do poder, por outro lado é também prática de reforma e controle do espaço urbano em que o uso da geometria, o cálculo, o levantamento topográfico e a arte militar são baseados na concepção de poder que já não é mais simbólica mas espacial. O projeto arquitetônico, enquanto prática distinta da arte de construção, desenvolve o seu próprio arsenal de técnicas de representação do espaço, sob o ímpeto de projetos para a construção de infraestruturas territoriais em que as áreas civis e militares se tornam setores operacionais cada vez menos distintos. Arquitetos renascentistas como Filippo Brunelleschi e Franscesco di Giorgio Martini desenharam máquinas que serviram não apenas para fazer a guerra mas também para organizar a vida civil e especialmente para fazer os trabalhadores trabalharem, como se pode ver no caso das incontáveis máquinas desenhadas por Filippo para o turbulento local de construção da cúpula de Santa Maria del Fiore onde uma famosa greve dos trabalhadoresameaçou parar o trabalho na Catedral. É destes eventos que o conhecimento nasce, ou seja, cada vez mais orientado para a gestão da cidade enquanto processo social. A fábrica é assim a visão da cidade enquanto conjunto de máquinas cujo desenvolvimento depende da intensidade do conflito que este tem que enfrentar.

6. A fábrica fordista é impensável sem o processo de transformação da cidade e do território em máquina social. A famosa tese pós-operaista de que a multidão está para a cidade como os trabalhadores estão para a fábrica, apesar de útil e sugestiva, arrisca no entanto de definir a fábrica como uma estrutura rígida e imóvel, arrisca a fazer-nos não entender até que ponto o território urbanizado tem sido sempre a verdadeira fábrica. Para além disso, a ideia da fábrica fordista-taylorista enquanto estrutura rígida contra o aparato fluido do trabalho imaterial contemporâneo é uma concepção deste tipo de fábrica demasiado simplista e em certo sentido enganadora. Como a história das grandes fábricas do século vinte mostra, a fábrica fordista conseguia resistir à insubordinação dos trabalhadores ao renovar-se continuamente, transformando a sua estrutura técnica e social compulsivamente. Não é coincidência que a fábrica fordista assuma o princípio espacial de “pianta tipica”, ou seja, um grande espaço vazio com o mínimo de estruturas de sustentação. É interessante notar como este dispositivo é agora usado em escritórios, museus (que muitas vezes ocupam fábricas “desativadas”), mas também universidades e até mesmo residências.

Como Francesco Marullo observou, esta concepção de espaço arquitetônico enquanto espaço flexível não é mais do que a aproximação espacial da verdadeira natureza do trabalho vivo, que se refere ao trabalho no poder e portanto irredutível a formas espaciais definitivas16. Além disso, como Alquati já havia apontado nos anos 70, na fábrica fordista também o capital se apropria do conhecimento e não apenas dos músculos do trabalhador17. Por um lado, no campo do chamado trabalho imaterial do trabalhador cognitivo, encontramos uma crescente, e agora invisível (ou dissimulada], “fabriquização” pesada do trabalho como por exemplo, nos grandes “open floors” dos escritórios do Facebook em Mania Park onde mais de mil  pessoas trabalha m no que é conhecido como ” o maior espaço-aberto do mundo”. Aqui podemos ver não apenas o reaparecimento da arquitetura da grande fábrica com os seus espaços abstratos mas o trabalho em si compulsivamente medido e controlado na sua totalidade. Não é coincidência que tantas destas companhias tenham estendido o seu controle para fora da fábrica ao iniciar projetos de habitação juntos aos escritórios e a organizar sistemas capilares para transportar empregados, como é feito em São Francisco, a Detroit 4.0. Para não falar da chamada arquitetura do preenchimento, o lado logístico do comércio online (Amazon etc.), feito para lugares onde a exploração da força de trabalho alcançou níveis de exploração inimagináveis.18

No fundo, a explosão de aplicações como o Uber não é mais do que a lógica continuação da extensão da fábrica à sociedade: a uberização do espaço não é mais do que a aceleração da urbanização. Devíamos levar mais a sério as tentativas de sublimar esta realidade através do fetiche da fábrica como pode ser vista em muitos lugares ligados ao trabalho criativo ou não. Em Operários e Capital, Tronti preveniu-nos especialmente contra a tendência do pensamento Marxista para definir tudo o que acontece no campo oposto como uma aparição ideológica. Na verdade, é precisamente o uso compulsivo do termo fábrica por muitas empresas do trabalho 2.0 (como em “fun factory”, “creative factory”, “knowledge factory”, “food factory”, “art factory”) que trai o ethos stakhanovista, que torna difícil de esconder: trabalhe arduamente, diverta-se, faça história – diz o slogan registrado à entrada dos escritórios da Amazon.

Portanto, é um erro acreditar que, no momento em que a exploração do trabalho produtivo está em todo o lado, a fábrica desaparece. A fábrica, como no começo da sua história, é articulada através de lugares estratégicos que animam a máquina territorial urbana e funcionam como um gargalo de uma garrafa. O gargalo da garrafa não obstrui, mas regula o fluxo, dirige a força e regula o seu poder. Ao mesmo tempo, o próprio gargalo da garrafa, precisamente porque cria atrito, está num permanente processo de ficar obstruído e bloquear o fluxo. É interessante notar que muitas ocupações recentes em espaços como a Praça Tahrir no Egipto e Pearl Roundabout no Bahrain, tiveram lugar não em praças tradicionais como a Praça Navona em Roma, mas em rótulas, um tipo de praça que nasceu com a cidade industrial e que era usada para regular o tráfego efetivamente. Assim, a ocupação destes espaços parece requerer certa permanência política precisamente onde o capital transformara a cidade num sistema de fluxos. A fábrica deve assim ser pensada enquanto sistema mecânico articulando muitas coisas que à primeira vista são distintas, como transporte, logística, sistema de algoritmos de finanças mas também recursos naturais e territórios agrícolas.

Na fábrica contemporânea existem menos de seis degraus de separação entre algoritmos financeiros, a start-up de São Francisco, a apropriação de terras na Ásia e África. Claro que na fábrica também existe dívida, consumo, renda, novas formas de ascetismo que o capital usar para disciplinar os subordinados. Mas todas estas coisas devem ser vistas como um novo desenvolvimento deste sistema coercitivo, esta forma de permanente acumulação primitiva que se estende ao longo do território em que o capital comanda e explora o trabalho vivo. Separar as formas de exploração e coerção como se fossem capítulos separados e vê-los como paradigmas de mudança onde o “novo” persegue o “velho” é, na minha opinião, um erro não apenas tático mas estratégico

O regresso da fábrica é assim uma provocação para redescobrir e reconstruir a geografia da fábrica contemporânea e a sua relação simbiótica com a sociedade. Desta fábrica, é preciso reconstruir a genealogia como aqui tentámos fazer de uma forma sucinta com estas breves reflexões, mas também devemos procurar por mais indícios no território urbano contemporâneo. Talvez seja necessário, neste caso, afastar-se da retórica dos fluxos das multiplicidades desencarnadas, através dos quais as lutas contemporâneas têm sido lidas.

As recentes lutas dos trabalhadores dos centros logísticos da TNT, Amazon, IKEA mas também das lutas No-Tav no Val de Suse contra a linha de comboio de alta velocidade, de NoDalp a Stading Rock no Dakota do Norte contra a passagem de um oleoduto, dos ciclistas distribuidores em Milão contra a exploração do trabalho no tempo das aplicações de smartphone, mostrou-nos uma nova geografia possível da fábrica contemporânea, a sua localização física e os seus conflitos.

 

NOTAS

  1. Sobre este tema veja-se a importante contribuição sobre o conceito de Cidade Fábrica de Alberto Magnaghi «Dalla città fabbrica alla metropoli informatica», in S. Bonfiglioli, M. Galbiati, Dopo Metropolis, Franco Angeli, Milano, 1984.
  2. Ludwig Hilberseimer, Groszstadt Architektur, Julius Hoffmann Verlag, Stoccarda, 1927, trad. it. Groszstadt Architektur. L’Architettura della Grande Città, Clean Edizioni, Napoli, 1998, p. 7.
  3. Ildefonso Cerdà, Teoría general de la urbanización y aplicación de sus principios y doctrinas a la reforma y ensanche de Barcelona Imprenta Española, Madrid 1867
  4. Andrea Cavalletti, La città biopolitica, Mondadori, 2005
  5. Le Corbusier, Vers une Architecture, Georges Crés, Parigi, 1923.
  6. Carl Schmitt, Der Nomos der Erde im Völkerrecht des Jus Publicum Europaeum, Durcker & Huboldt, 1997 (1950)
  7. Veja-se James D. Tracy, The Political Economy of Merchant Empires, Cambridge University Press, London, 1997.
  8. G. W. F. Hegel, Lineamenti per la filosofia del diritto, Laterza, Bari, 1969, p. 247.
  9. Mario Tronti, «La Fabbrica e la Società» in Operai e Capitale, DeriveApprodi, 2006 (1966), pp.35-56.
  10. Ibid. 35.
  11. Manfredo Tafuri, Per una critica dell’ideologia architettonica, «Contropiano», 1, 1969, pp. 31-79.
  12. Mario Tronti, Operai e Capitale, cit. 49.
  13. Ver o completamente necessário a «Operai e Capitale di Tronti: Leopoldina Fortunati, L’arcano della rirpoduzione: Casalinghe prostitute, operai e capitale, Marsilio», Padova, 1981.
  14. Marvin Trachtenberg, The Dominion of the Eye, Urbanism, Art and Power in Early Modern Florence, Cambridge University Press, Londra, 2008.
  15. Ernesto Screpanti, L’angelo della liberazione nel tumulto dei Ciompi. Firenze Giugno-Agosto 1378, Protagon Editori Toscani, Firenze, 2008.
  16. Ver: Francesco Marullo, Architecture and Revolution. The Typical plan as Index of Generic in Pier Vittorio Aureli (org.), The City as a Project, Ruby Press, Berlino 2014, 216-260.
  17. Ver: Romano Alquati, Lavoro e attività. Per una analisi della schiavitù neomoderna, Manifestolibri, Roma, 1998.
  18. Ver a investigação desenvolvida pelo colectivo Behemont sobre este tema.
  19. Sobre este tema ver: Eyal Weizman, The Roundabout Revolutions, Sternberg Press, Berlino, 2015.

Traduzido a partir de: http://revueperiode.net/retour-de-lusine-le-territoire-larchitecture-les-ouvriers-et-le-capital/ e http://operaviva.info/il-ritorno-della-fabbrica/

Tradutor: João Santos, mestrando em História Contemporânea na FCSH-UNL (Lisboa)


Mostrar
Share On Facebook
Share On Twitter
Share On Google Plus
Share On Linkdin
Share On Pinterest
Share On Reddit
Share On Stumbleupon
Ocultar