Os selvagens e os organizados: crônica de um descompasso

Por Silvio Pedrosa

Em memória de Gabriel Pereira Alves

Será que não nos cansaremos de ver todas as mobilizações autônomas serem desfiguradas até se transformarem numa caixa de ressonância do que o lulismo quer? Mais do que isso: não nos cansaraemos o suficiente para aprender que o esquerdismo é a régua moral que enquadra e recorta tudo que aparece, fazendo murchar tudo que é plural até que as manifestações virem essas missas civis do bom mocismo saudosista de uma esquerda sufocada pela própria ideia de si mesma e coagida pelo controle de uma rede de influenciadores e máquinas publicitárias?

Na segunda, por mero acaso (havia saído mais cedo do trabalho), acompanhei uma manifestação completamente autônoma de jovens estudantes secundaristas clamando por justiça para um de seus amigos (o jovem Gabriel Pereira Alves, morto durante uma operação no morro do Borel na sexta-feira). Não havia ninguém com mais de vinte anos a não ser eu (quando a manifestação parou na entrada do Borel, o pai do próprio Gabriel e um pastor se juntaram ao protesto) e foi a melhor experiência política que tive nos últimos anos. Nenhum macete militante ou palavra de ordem alienígena à pauta que os dispôs nas ruas: apenas crítica da violência assassina da polícia e antibolsonarismo (o governador Wilson Witzel incrivelmente não foi mencionado nenhuma vez sequer). Nenhuma mediação de aparelho: os representantes deles eram eles mesmos.

Foram três horas de silêncio, ouvindo e observando aqueles meninos e meninas conduzindo uma manifestação radical e sem concessões. Nenhum deles me interpelou em nenhum momento apesar de eu ser o único estranho com eles durante três quilômetros de manifestação (apenas ficaram apreensivos durante as filmagens que realizei, motivo pelo qual tentei captá-los sempre de costas ou a uma distância segura). Eu simplesmente vi a comoção causada pela sua presença nas ruas naquele início de tarde, corri e me juntei a eles. Entre aqueles jovens encontrei um pouco de possível e uma certa sensação de alegria por estar ali, livre dos velhos fetiches e das toscas performances do estilo militante.

Enquanto na noite de ontem abundaram os relatos de recrudescimento do aparelhamento partidário das manifestações (leia-se: captura pelo lulismo de uma mobilização contra a austeridade na educação), na segunda-feira os cantos e gritos de guerra (guerra contra a guerra) daqueles jovens não precisavam de carros de som para serem transmitidos entre eles e para quem estivesse passando.

O leitor mais pragmático dessas linhas pode, cioso ou não das velhas formas de organização, responder que o protesto foi pequeno e irrelevante ou ainda de que se trata do registro episódico de um processo de mobilização que vai morrer. Pode até ser verdade, mas o que me impressionou naquele protesto não foi ter sido uma demonstração de outra organização possível — tratou-se afinal de puro espontaneísmo indignado daqueles estudantes.

Muito ao contrário, o que ele indicou foi justamente o descompasso daquilo que é formalmente organizado com a dinâmica da própria sociedade, aquilo que as organizações formais pretendem capturar e dirigir, vampirizando a energia social até que reste apenas o cadáver do que poderia ter sido. Talvez precisemos nos desorganizar mais, descobrir o saber de não sabermos o que fazer e pesquisar esse “quê” e esse “como” nas lutas que já existem.

O fato dessas manifestações não detonarem processos mais consistentes de mobilização sinaliza o fato de que elas não encontram eco nas formas carcomidas das organizações existentes e ilustra bem o processo de esvaziamento das mobilizações autônomas pela educação: quando os organizados (partidos e sindicatos) chegam por uma porta, os desorganizados (ou seja, as maiorias) saem pela outra, restaurando a polarização de sempre aos seus novos velhos termos e se resumindo aos atores aos quais já vamos nos acostumando.

A natureza agonizante (quando não natimorta) das iniciativas do progressismo ou da esquerda no Brasil derivam desse descompasso estrutural que não é nacional, mas global (o mesmo mal-estar se registra na França, por exemplo, entre os coletes amarelos e a esquerda francesa). Intoxicada da memória nostálgica de um século XX que muitos insistem em reivindicar, o esquerdismo se afunda no passadismo de fórmulas que não se sustentam mais no século XXI, procurando em vão por uma classe operária que já não se pode mais organizar e que tampouco se encontra mais nos seus antigos habitats. A crônica desse descompasso entre o vigor selvagem e radicalmente autônoma dos pobres e o fetichismo da esquerda por sua própria história é a crônica do desastre de uma sociedade que sucumbe à guerra como último mecanismo de regulação social diante da barbárie do colapso climático que vem.

inicialmente publicado em https://medium.com/@silviopedrosa/os-selvagens-e-os-organizados-crônica-de-um-descompasso-4d8c6da6bf3b


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