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Quadrado dos Loucos

A política do imperceptível

Por Bruno Cava

Imagem: Frans Snijders, Still Life with Dead Game, Fruit and Vegetables (c. 1616–1620). Óleo sobre madeira. Rijksmuseum, Amsterdã. Domínio público.

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Alguns apontamentos en passant.

Quando Deleuze fala, no Abecedário, que ser de esquerda é uma questão de percepção, não se pode jogar fora a precisão filosófica dos termos utilizados por ele.

Primeiro, nessa mesma passagem, Deleuze passa imediatamente do ser ao devir minoritário: “ser, ou antes, devir minoritário”. Nas citações correntes desse trecho, a cinzelada do autor desaparece, e aí se corre o risco de confundir “ser de esquerda” com um certo olhar sobre o mundo, uma determinada cosmovisão ou uma forma específica de ver.

Isso seria um duplo erro. De um lado, supõe um sujeito já constituído; de outro, um mundo de objetos igualmente pronto. A percepção passa então a servir de ponte entre dois termos que existiriam antes da relação. Nada menos deleuziano.

Em Deleuze e Guattari, o devir precede o ser, como a política precede a ontologia. Antecede o ser no sentido em que os estados constituídos no campo social resultam de processos que continuam a percorrê-los, deslocá-los, transformá-los. Termos e relações emergem de linhas cujo traçar já é político.

No caso de esquerda, Deleuze estabelece a relação com devires minoritários. Sem entrar na problemática dos devires, sobraria apenas uma identidade.

Uma minoria designa um conjunto definido em relação a um padrão majoritário. “Majoritário”, aqui, não significa apenas numericamente mais numeroso. Designa a medida, digamos, o homem branco, adulto, masculino, urbano, segundo a qual as diferentes posições são reconhecidas e avaliadas.

O devir-minoritário acontece quando essa medida entra em variação, afetando tanto os que ela subordina quanto aqueles que parecem encarná-la.

Uma minoria pode tornar-se o meio ativo de um devir quando suas lutas fazem variar o padrão que as define. Pode também encerrar-se no entrincheiramento de uma identidade já reconhecida e formalizada. O devir-minoritário não propicia um modelo pronto de outra sociedade; traça uma linha que modifica, por dentro, as relações da sociedade existente.

Não é busca de uma sociedade alternativa, mas linha de fuga para uma alternativa de sociedade.

Nesse mapa conceitual, nenhum conjunto numerável possui o devir como atributo ou essência. O devir é real e transborda os limites de qualquer grupo. Pode interromper-se quando a transformação se fecha na certificação de uma identidade, o que Deleuze e Guattari chamam, em tom polemista, de “moral de estado civil”.

Em segundo lugar, vale a pena ler a frase deleuziana à luz de Mil platôs (Deleuze e Guattari, 1980), que trata extensivamente do problema filosófico da percepção.

Em Mil platôs, perceber é esculpir um campo. Capturamos figuras, cinzelamos contornos, deciframos movimentos na medida em que nossos hábitos toleram. O mundo, entretanto, pulsa e desliza sob as formas reconhecíveis. A mesma rua vai se tornando outra, sem que um único dia tenha marcado o ponto de passagem. Um gesto pode escorar uma hierarquia durante anos antes que sua política irrompa na superfície.

D&G chamam de imperceptível o movimento que passa entre estados reconhecíveis. “Imperceptível”, aqui, não significa oculto, nem abafado pela “ideologia”. Em vez disso, designa o que os limiares habituais da percepção deixam escapar quando isolam formas já estabilizadas.

Daí o paradoxo em Mil platôs sobre a percepção: o imperceptível é também o percipiendum, aquilo que clama ser percebido. O movimento alcança a percepção quando seus limiares se alteram e, além dos estados sucessivos, tornam-se apreensíveis as relações que os compõem.

Saídas dispersas começam a compor os fluxos de um bairro; cumprimentos cotidianos escancaram a hierarquia que secretamente efetuavam. Quem percebe descobre-se enredado nas mesmas relações. O ponto de vista não pertence a um sujeito já pronto, mas à disposição na qual esse sujeito ganha corpo e adquire um lugar.

Já o devir-imperceptível – segundo os autores, o “fim imanente de todos os devires” – designa a transformação dos corpos que entram no movimento.

D&G recorrem à imagem de um peixe camuflado no fundo do mar, o peixe-pedra. Sua pele, sua cor e sua imobilidade prolongam as linhas da rocha, da areia e das plantas. Seu contorno deixa de ser impositivo enquanto fronteira entre uma figura e o meio. O peixe fica ali parado, plenamente real, embora seja difícil separá-lo do mundo que compõe.

D&G chamam de “fazer mundo”. O corpo se torna imperceptível quando suas linhas passam a continuar nas linhas do meio, e sua unidade deixa de comandar a percepção. O devir-imperceptível designa essa passagem da forma isolada à composição.

Em suma, o percipiendum é o movimento que força a percepção a mudar de escala. O devir-imperceptível acontece com o corpo que, como o peixe entre pedras, deixa de valer como figura separada e passa a existir pelas relações que compõe.

Exemplo.

Pense a leitora num bairro popular próximo ao centro.

A cada renovação de contrato, o aluguel sobe um pouco. Uma família se muda, o proprietário reforma o imóvel e o reposiciona no mercado imobiliário por um preço mais alto. Aí esse preço vira referência para a casa vizinha. Meses depois, outra família parte e o novo patamar alcança o quarteirão seguinte. Cada saída mantém a aparência de uma decisão particular, cercada por razões domésticas e localizadas. A sucessão dessas partidas altera, pouco a pouco, quem consegue ficar.

A substituição dos moradores vai mudando o público ao qual o bairro se destina. A antiga padaria fecha as portas e dá lugar a um estabelecimento voltado aos recém-chegados. Os modos de vida que sustentavam a vizinhança convertem-se em atrativo imobiliário, e sua imagem passa a acelerar a expulsão dos que a produziram.

Quando os moradores se dão conta da mudança, a dinâmica dos preços das casas já escolheu quem tem condições de ficar, e a rua se acostumou a outros passos. Cada alteração esteve diante dos olhos. O movimento correu fora do campo, entre elas, abrigado na semelhança de um dia com o seguinte.

Até que certo dia, um morador olha em volta. As vozes mudaram, os velhos conhecidos partiram, a antiga vizinhança vive na memória. Pergunta-se: como chegamos até aqui?

Chegamos aos poucos. A mudança repartiu-se em intervalos pequenos demais para receber uma data. Quando adquiriu forma reconhecível, estava consumada. O bairro tornou-se outro no carrossel ordinário dos dias consecutivos, entre o ontem e o hoje.

A transformação chega à percepção por seus efeitos. O olhar encontra um bairro composto de outro modo, enquanto o movimento que o produziu passou entre dias quase iguais. A cena mostra a imperceptibilidade relativa de um processo gradual e também sua indeterminação política.

Neste caso, foi o processo da capitalização do território que encadeou preços, reformas, substituições. O percipiendum ganha consistência quando essas relações, e não apenas o bairro resultante, adentram o campo perceptivo.

Outro exemplo. Imaginemos agora um bairro mais abonado.

Há anos, o porteiro se ergue quando o morador se aproxima, franqueia-lhe a passagem e diz “bom dia, doutor”. As trabalhadoras domésticas atravessam outra entrada, tomam outro elevador e chamam as moradoras de “donas”.

Certa manhã, os empregados permanecem sentados. Passam a dizer apenas “bom dia”. O trabalho prossegue. A rotina se repete quase igual. Ainda assim, os moradores sentem que alguma coisa se rompeu. A antiga deferência recebe agora os nomes de respeito e disciplina.

O cumprimento sempre fora audível. Sua política corria abaixo do limiar da percepção. Quando o gesto cessa, a relação vem à tona. O morador percebe quanto sua posição dependia daquele reconhecimento. E entre os empregados, a suspensão compartilhada torna comum o que antes aparecia como conduta isolada.

O gesto conduz a percepção direto à relação que a efetuava. É a própria relação que agora se torna o percipiendum. Essa suspensão comum abre, antes de tudo, um devir-minoritário. À medida que o gesto se desprende de seu proprietário individual e passa a circular entre os empregados, ele compõe uma ação que nenhum deles explica sozinho.

Esboça-se ali a borda impessoal de um devir-imperceptível. As figuras outrora separadas do porteiro, da doméstica e do funcionário cedem a vez a uma potência comum, ainda sem rosto.

A ordem social reage com sua conhecida plasticidade. A administração falará em “postura profissional”, “quebra de confiança” e “casos isolados”. Procura um instigador. O porteiro insolente será transferido, a doméstica inconveniente poderá ser demitida e o funcionário indisciplinado receberá uma severa advertência.

Cada providência devolve ao acontecimento um culpado e a cada corpo seu antigo lugar. O que emergia como composição comum se desfaz na poeira dos casos isolados.

Essa transformação de um gesto doméstico em sinal de perigo encontra um registro eloquente nas recordações que Tocqueville escreveu sobre as Jornadas de Junho de 1848, em Paris.

Na rua Saint-Honoré, ele se depara com operários que acompanham a aproximação dos canhões com uma alegria mal contida. Isso o espanta. Logo depois, relata um episódio que lhe fora contado pelo economista liberal Adolphe Blanqui.

Enquanto retirava a mesa, o jovem criado de Blanqui anunciou que, no domingo seguinte, seriam eles a comer as asas do frango. Uma menina que trabalhava na casa acrescentou que seriam elas a vestir os belos vestidos de seda. Blanqui fingiu não ouvir, tomado de medo.

Amedrontava mais o sorriso esquisito dos criados do que o barulho dos tiros que se aproximavam.

Eis aí uma questão de percepção levada à política.

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REFERÊNCIAS

DELEUZE, Gilles. L’Abécédaire de Gilles Deleuze. Entrevistas concedidas a Claire Parnet. Direção de Pierre-André Boutang e Michel Pamart. Paris: Éditions Montparnasse, 2004 [DVD]. Ver especialmente a letra G, G comme Gauche (Esquerda).

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mille plateaux: capitalisme et schizophrénie. Paris: Les Éditions de Minuit, 1980. Especialmente o platô 10, 1730 – Devenir-intense, devenir-animal, devenir-imperceptible…

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 4. Tradução de Suely Rolnik. São Paulo: Editora 34, 1997.

TOCQUEVILLE, Alexis de. Lembranças de 1848: as jornadas revolucionárias em Paris. Tradução de Modesto Florenzano. Introdução de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Especialmente a segunda parte, capítulo IX, dedicado às Jornadas de Junho.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente a posição da Universidade Nômade.

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