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Quadrado dos Loucos

O pecado original do artifício; A caneta, o ChatGPT e os fiscais da vida alheia

Por Bruno Cava

Imagem: Thomas Rowlandson, Transplanting of Teeth (1787). Gravura em água-forte e água-tinta, colorida à mão. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. The Elisha Whittelsey Collection, 1959. Domínio público.

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(…) si suas ad aliorum actiones comparatas imbecilliores esse imaginetur, quam quidem tristitiam (…) amovere conabitur, idque suorum aequalium actiones perperam interpretando vel suas quantum potest adornando.

Spinoza, Ética, III, proposição 55, escólio.

Essa citação de Spinoza merece vir no latim pós-escolástico filtrado pela cultura erudita seiscentista (i.e., ressecado em relação à exuberância retórica do latim dito clássico de um Cícero): seja pela precisão ao preservar a ressonância do conceito de conatus, presente na forma verbal conabitur; seja pelo paralelismo quase literário entre os gerúndios interpretando e adornando, que descrevem procedimentos diferentes de uma mesma economia da comparação.

Quem conhece Spinoza sabe que esse é o famoso escólio sobre a inveja, sobre a dificuldade de reconhecer uma capacidade alheia sem que esse reconhecimento seja experimentado como uma diminuição da própria potência. Daí atribuirmos a uma causa exterior o que, de outro modo, exigiria reconhecer no outro uma potência, uma transformação ou uma realização que nos desconcerta.

Segundo Spinoza, ao contemplarmos nossas ações, experimentamos alegria, particularmente quando as consideramos expressões singulares de nossa potência. Mas, quando as comparamos às ações dos outros e as julgamos inferiores, essa comparação pode produzir tristeza. Como nos esforçamos por afastar o que nos entristece, podemos reinterpretar negativamente as ações daqueles com quem nos comparamos, enquanto exageramos as nossas.

Em português, a passagem de Spinoza ficaria assim (trad. minha): “(…) se imaginar que suas ações, comparadas às dos outros, são inferiores, procurará afastar essa tristeza, interpretando as ações de seus semelhantes desfavoravelmente ou adornando, tanto quanto for possível, as suas próprias.”

Digo isso porque tenho notado uma tendência cada vez mais presente. Se perco peso porque me exercito, perguntam-me quando comecei a usar a caneta Mounjaro. Se escrevo um texto particularmente eloquente, perguntam-me se estou usando IA.

Tenho um histórico de correr desde bem cedo na vida, mas recentemente resolvi voltar a treinar de modo sistemático, para perseguir metas que eu pelo menos considero bem dignas para meus quarenta-e-tantos: sub-20′ em 5 km (rua) e 3.200 m na corrida de 12 min contínuos (pista).

Ao mesmo tempo, exames de colesterol pouco animadores me obrigaram a cortar drasticamente a gordura saturada. Com tudo isso, em seis meses, perdi 5 kg, passando de cerca de 81 para 76 kg. Aí começou algo novo.

Comentários, alusões, perguntinhas, com aquela falsa casualidade de quem já tem a resposta: “Tá na caneta?” Não. Mas claro que cada inquirição revelava de imediato o maior efeito colateral da dieta forçada que a balança não registrava: o mau humor.

Também recentemente tenho recebido perguntas semelhantes sobre o uso de IA na elaboração de textos.

Antes de passar às análises, neste caso a minha resposta é sim, muito, o tempo todo.

Primeiro, porque é maravilhoso. Estou brincando.

Primeiro, porque a IA não é um deus ex machina. Usá-la não é simplesmente apertar um botão, e a ideia de que faz as coisas sozinha é, ela própria, uma maneira preguiçosa de pensar. Envolve mais uma camada, vastamente criativa, de técnicas de escrita, escolhas de escrita e uma expertise de escrita que também se desenvolve nos usos e reusos mesmos.

Trata-se, aliás, de uma transformação dos processos da escrita e da literatura, que sempre foram maquínicas e sociotécnicas. Nem é preciso ir muito longe na filosofia da linguagem, tampouco convocar Simondon para lembrar que a oposição entre cultura e técnica, homem e máquina, é falsa e sem fundamento, encobrindo ignorância ou ressentimento (Du mode d’existence des objets techniques, de 1958).

Bastam algumas constatações históricas, mais prosaicas. A fantasia do autor autossuficiente, do homem em self-reliance, criando sem mediações, não resiste a uma história da escrita como agenciamento — história que, aliás, ainda merece ser contada.

Desde suas origens há milhares de anos, escrever nunca se reduziu a transcrever um pensamento previamente elaborado no interior da cabeça. Pensamos escrevendo e escrevemos pensando, num circuito que integra as potências e impotências do corpo, da linguagem e dos artefatos materiais.

Por exemplo, na Idade Média, a materialidade da escrita era muito mais ostensiva. Havia quem soubesse ler, mas não escrever; e quem dominasse a cópia de caracteres sem necessariamente compreender o que copiava. A obtenção e a preparação dos materiais constituíam um terceiro problema.

Nos mosteiros, a produção de um códice mobilizava pergaminheiros, copistas, rubricadores, iluminadores, corretores, além de penas, tintas, facas, réguas — toda uma organização sociotécnica do trabalho.

O autor podia ditar, o escriba transcrever, outro corrigir, outros ainda copiar e preparar o manuscrito para circulação. A escrita já era um agenciamento, muito antes que alguém sonhasse com um processador de texto.

Tomemos Hildegarda de Bingen, no século XII (figura fascinante que estudei durante a escrita do meu romance histórico, ambientado justo nesse século). Uma das grandes autoras medievais, Hildegarda ditava textos e elaborava rascunhos em tabuinhas de cera. Mas contava com uma longa cauda de colaboradores.

O monge Volmar auxiliava na redação e corrigia seu latim; religiosas do mosteiro participavam da cópia dos manuscritos. Mais tarde, Guibert de Gembloux interveio de tal maneira na elaboração linguística de alguns textos que pesquisadores hodiernos conseguiram identificar, por análise estilométrica, marcas de sua contribuição.

Ninguém precisou esperar pelo ChatGPT para descobrir que autoria, elaboração intelectual e execução material da escrita não são a mesma operação.

A verdadeira ficção é a do escritor que se imagina sozinho diante da página, em estado de natureza, até que o ChatGPT aparece para corrompê-lo. Pobre escrita ameaçada!

Segundo, porque é o terceiro e inexorável agenciamento máquina-escrita da era computacional, depois de “escrever com Word/editor de texto” e “escrever usando o Google/mecanismo de busca”. É fait accompli. Sobra o spleen aristocrático de voltar à máquina de escrever — uma tecnologia que, de tão vetusta, inclusive já pode passar por natureza.

Terceiro, porque reduzir o debate sobre a IA à fiscalização de seus usos e abusos individuais é de um atroz provincianismo. Enquanto se reconfiguram mundialmente as condições da produção do conhecimento, seguimos, em nossa republiqueta das letras, preocupados em policiar a pureza dos métodos.

Coloquemos melhor o problema. Me perguntem pelas consequências geopolíticas da distribuição desigual dessas tecnologias, por seu potencial de ampliar as possibilidades da pedagogia freiriana, pelas transformações do trabalho e os riscos de desemprego tecnológico, por seus impactos na matriz energética e na transição para fontes renováveis, ou pelos efeitos psicossociais de sua difusão em escala. Longo etc.

Se quiserem discutir o uso individual, aí já entramos no microscópico. No meu caso, procuro terceirizar o que é terceirizável. É como ter à disposição uma legião de estagiários super-esforçados e supercompetentes.

Na escrita propriamente dita, o ChatGPT me ajuda sobretudo a domar meu estilo empolado, digressivo, barroquista — um mal que me acompanha desde os tempos em que publicava textos no GeoCities, entre 1999 e 2001, passando pelo Blogspot, a partir de 2003, com o Prosa bastarda, inspirado nos Escritos corsários de Pasolini, até chegar ao WordPress, entre 2009 e 2014, com o Quadrado dos Loucos, cujo título e estilo roubei de um conto de Maura Lopes Cançado.

A IA me ajuda a podar esse vitium tenebrosum, que já me custou, na tardo-adolescência, até uma namorada, que terminou comigo sob a acusação procedente de que eu era uma “pessoa gongórica”.

*

Mas vamos retroagir essa mesma malha crítica às canetas emagrecedoras. Estou falando, em específico, da oposição entre natureza e artifício que plasma os julgamentos sobre seu uso. Antes do Mounjaro e de seus similares, já circulava por aí, com pouco rigor e muita convicção, o discurso da chamada dieta paleolítica.

Partia-se de uma premissa na aparência plausível, de que o corpo humano teria se constituído em maior harmonia com os ecossistemas de nossos antepassados e, por conseguinte, estaria mais bem adaptado à alimentação deles: carnes, ovos e vegetais.

Ou seja, o que fosse mais conforme à nossa história natural seria também mais saudável, numa espécie de teleologia espontânea do natural (de vagas ressonâncias aristotélicas). Afinal, argumentava-se, a industrialização tem pouco mais de dois séculos, enquanto o Homo sapiens conta centenas de milhares de anos.

Mas a carne do antílope paleolítico não era a do boi selecionado por gerações de domesticação, tampouco os ovos das aves selvagens eram os de nossas galinhas poedeiras, ou as plantas coletadas, as verduras que encontramos hoje no supermercado.

Não apenas os alimentos mudaram. Tudo mudou para nós. Há milênios constituímos e reproduzimos nossos corpos no interior de uma gigantesca, pervasiva, inescapável maquinaria sociotécnica, feita de domesticações, seleção genética, cultivo, transformação, conservação, transporte e preparação dos alimentos.

Nem os chamados “orgânicos” ou, como se diz na Itália, os “biológicos” escapam disso. São produtos de técnicas agrícolas, variedades cultivadas, conhecimentos acumulados e sistemas de produção e distribuição.

Recorramos aqui a Spinoza.

O corpo jamais foi essa entidade autossuficiente que a técnica viria perturbar. Na Ética (II, postulado 4), ele afirma que o corpo humano necessita, para se manter, de muitos outros corpos, pelos quais é continuamente regenerado. Sua existência é inseparável dessas relações de composição.

Não há um corpo originário, um corpo originalmente puro, alimentado por uma natureza intocada, ao qual a farmacologia viria finalmente acrescentar um adendo ou artifício. A questão é inteiramente outra. O que cada nova composição faz com o corpo, o que favorece ou prejudica a sua potência de agir.

É nesse terreno, o terreno propriamente ético (o terreno do que um corpo pode — e não o que deve), e não na contraposição moralizante entre natural e artificial, que também deveria ser discutido o Mounjaro, as canetas.

De um lado, temos uma indústria alimentícia de escala planetária, capaz de distribuir e anunciar incessantemente produtos ultraprocessados, muitos deles formulados para estimular o consumo frequente, em ambientes que favorecem a obesidade. Não estou dizendo, vejam bem, que a publicidade promova a obesidade. Mas ela anuncia o prazer, a conveniência, a recompensa, a felicidade em pequenas porções embaladas. A obesidade é um dos efeitos coletivos de um sistema.

De outro lado, vivemos numa vitrine instagramável, em que tudo se oferece ao olhar voyeurista, à comparação severa, ao tribunal do ressentimento. Somos insistentemente incitados a consumir e, com igual insistência, cobrados a exibir um corpo que não denuncie as marcas desse consumo. A produção de subjetividade predominante nos quer simultaneamente consumidores insaciáveis e empreendedores implacáveis de nós mesmos, quer dizer, somos entregues aos apetites e culpados por suas consequências.

E nem é preciso invocar algum Moloch conspiratorial (e as big techs são o Moloch da vez). Esses circuitos desejantes não precisam de um maestro central nem de um plano comum. Reforçam-se molecularmente, atiçando desejos, distribuindo culpas, fazendo de nossos próprios afetos suas engrenagens.

Eis uma questão spinozana muito mais perspicaz e fecunda do que fiscalizar quem emagreceu com ajuda farmacológica. Não perguntar se um corpo mereceu sua transformação, se deu prova moral o suficiente (de esforço, sacrifício ou correção social), mas o que pode esse corpo, quais relações ampliam ou diminuem sua potência, que novas possibilidades de vida se abrem ou se fecham. A liberdade, em Spinoza, não consiste em escapar à determinação das causas, mas em compreendê-las e tornar-nos causas mais adequadas do que fazemos e do que nos acontece.

A problemática se inicia nos agenciamentos sociotécnicos, que articulam saúde pública, indústria alimentícia, publicidade, medicina, modos de vida contemporâneos. Nos ambientes alimentares que produzimos, nas condições materiais de acesso a alimentos saudáveis, na prevenção e no tratamento da obesidade, atravessada por múltiplas determinações. E prossegue nas potencialidades abertas pelos medicamentos, em suas indicações clínicas, seus benefícios e riscos e regulações, nas desigualdades de acesso e nos interesses em disputa (inclusive da emergente indústria das canetas e seus mercados).

Não é caso de saber se a caneta violou alguma ordem natural, se contaminou algum corpo originário, mas que novas composições ela torna possíveis, para quais corpos e sob quais condições.

*

Para fechar, não me surpreenderia se, daqui a alguns anos, o sussurrado “você está na caneta?” se convertesse num perplexo e judicante “mas como você, com essa barriga, ainda não está?”.

A mesma tecnologia que hoje serve para desqualificar uma transformação corporal poderá amanhã ser exigida em nome do cuidado de si. Foi assim com a correção dos dentes, que aos poucos passou de possibilidade terapêutica a imperativo estético, até que toda a juventude pareça destinada a sair em série, feito laranjas de Catanduva.

O que hoje é trapaça amanhã será negligência. E surgirão novas distinções, novos mercados, novos imperativos, talvez até o máximo deleite elitista de recusar aquilo que a maioria ainda sequer consegue obter. E aí os fiscais da vida alheia não precisarão mudar de princípios. Bastará atualizar a lista de pecados.

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REFERÊNCIAS

CANÇADO, Maura Lopes. O sofredor do ver. Rio de Janeiro: José Álvaro, 1968. Especialmente o conto “No quadrado de Joana”.

KESTEMONT, Mike; MOENS, Sara; DEPLOIGE, Jeroen. Collaborative authorship in the twelfth century: a stylometric study of Hildegard of Bingen and Guibert of Gembloux. Digital Scholarship in the Humanities, v. 30, n. 2, p. 199–224, 2015. DOI: 10.1093/llc/fqt063.

PASOLINI, Pier Paolo. Scritti corsari. Milano: Garzanti, 1975.

SIMONDON, Gilbert. Du mode d’existence des objets techniques. Paris: Aubier, 1958.

SPINOZA, Benedictus de. Ethica ordine geometrico demonstrata. In: Opera posthuma. Amsterdam, 1677. Especialmente a parte III, proposição 55, escólio, e a parte II, postulado 4.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente a posição da Universidade Nômade.

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