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Como amar uma pátria [Родина], um livro de Oxana Timofeeva

Como amar uma pátria [Родина], um livro de Oxana Timofeeva | Em Pulp, quotidiani dei libri, 24/12/22 | Trad. UniNômade

Entrevista com Oxana Timofeeva, por Elisabetta Michielin

 

“Como amar uma pátria” (2020) é a primeira obra da filósofa Oxana Timofeeva, já publicada em russo, inglês, alemão e italiano, ainda sem tradução ao português. A entrevista a seguir, realizada por Elisabetta Michielin e publicada no site de resenhas “Pulp” foi traduzida do italiano ao português pelo coletivo de tradutores da rede Universidade Nômade.

Como é possível amar a pátria em um país como a Rússia de Putin, sempre mais autoritário, tirânico e empenhado numa guerra de invasão? Neste livro, escrito em 2019, mas atual como nunca, Oxana Timofeeva conta as suas três pátrias na União Soviética, onde nasceu, as primeiras lembranças da infância nas estepes cazaques e seus dias como estudante próxima ao círculo polar ártico. Ela relata como nas escolas soviéticas se distinguia entre a pátria “grande” e a “pequena”, como através das palavras de Bertolt Brecht se enfrenta o problema da pátria e do exílio durante o período fascista, e afinal contesta o desejo filosófico reacionário na raiz. A pátria não precisa ser o legado do passado, mas através da resistência pode ser reinventada e transportada para o futuro [Elisabetta Michielin].

Elisabetta: Internacionalismo x pátria. Sempre pensamos assim. Você em vez disso faz saltar a mais clássica das oposições, dizendo internacionalismo e pátria. O segredo dessa feliz conjunção “e” talvez estaria no modo como se ama a pátria? O que você entende por pátria?

Oxana: Do meu ponto de vista, a pátria não é uma nação, uma identidade nacional, uma etnia ou qualquer outra coisa. Não está em jogo na pátria nem o local de nascimento, nem os nomes de família. É por isso que não uso as palavras “Pátria Mãe” [Родина-мать] ou “pátria”, pois elas carregariam consigo uma história edipiana e familiar. A Pátria Mãe e a pátria são frequentemente mencionadas pelas máquinas de propaganda, especialmente em tempos de guerra. Essa retórica alude à ideia de origens biológicas e produz a ilusão de uma unidade entre o biológico e o geológico que os nazistas chamavam de “sangue e solo” [Blut und Boden]. Além disso, Mãe Pátria e pátria carregam consigo o significado de nacionalidade entendida como pertencente a um determinado estado, com seus governantes e sua ideologia dominante. Assim, aqueles que se autodenominam “patriotas” na Rússia de hoje são frequentemente apoiadores ativos do regime de Putin com seu militarismo agressivo, ou simples conformistas que buscam tirar vantagem desse regime. Ao contrário, [entendo que] a pátria diz respeito ao lar, ao lugar onde vivemos, aos ambientes e paisagens com os quais, como seres vivos, desenvolvemos uma relação sensual. Na medida em que, ao longo da vida, nos deslocamos para lá e para cá e podemos habitar mais de um lugar, a pátria pode ser compreendida como múltipla. Imagine um novo local onde venha instalar-se, dotando-se dos serviços necessários. Este lugar será seu novo lar, e a cidade, povoado ou vila, assim como o país em que está localizado, será sua nova pátria.

Elisabetta: Seu discurso poderia ser resumido com um slogan usado anos atrás por algumas associações de imigrantes que diziam: “Quem está aqui é daqui”?

Oxana: Sim, absolutamente. Mas há outra coisa que acho importante, principalmente quando falamos de imigrantes e refugiados. A pátria não se refere apenas a um lugar, mas também à experiência de deslocamento. Em certo sentido, para encontrar uma pátria, é preciso primeiro perdê-la. Às vezes, o sentimento de pátria só é sentido quando já se está deslocado e se entende que se tem ou não a possibilidade de voltar. Com a guerra na Ucrânia, milhões de ucranianos e russos estão perdendo suas casas. Os ucranianos se tornam refugiados porque os militares russos bombardeiam suas cidades e infraestruturas civis todos os dias. Tornar-se um refugiado é uma questão urgente de sobrevivência. Na Rússia, as cidades não são bombardeadas, mas milhões de pessoas ainda precisam fugir do país, não só porque há terror policial por um lado e mobilização do exército por outro, mas também porque não se sentem mais em casa. Estou mantendo uma posição quase impossível, viajando entre a Rússia e a Alemanha, e agora Berlim parece ter se tornado minha segunda casa. Estou tentando perceber esta cidade, descobrir minhas coisas nela, explorá-la como um animal em um novo habitat. Mas ainda tenho um lugar para onde voltar. É um privilégio. Conheço russos que não podem voltar porque fugiram do estado não por vontade própria, mas sob pressão da polícia, e russos que não querem voltar porque querem se livrar de sua identidade nacional e de qualquer associação com seus país. Mas também conheço ucranianos que gostariam de voltar, mas não têm mais casa, porque sua cidade, ou sua casa, foi destruída por um bombardeio. Eles precisam começar uma nova vida na Europa e levará algum tempo até que finalmente se sintam em casa e à vontade. O melhor país seria aquele que se oferecesse facilmente como um novo lar amoroso para todos os refugiados e exilados. Talvez esse país não exista, mas gosto de pensar que sou de lá.

Elisabetta: Fiquei muito impressionada com a sua escrita, que ancora a filosofia à biografia, mas não as entrelaçando e sim as colocando para deslizar sobre o mesmo plano. Por que essa escolha?

Oxana: Alguém acabou de comentar que meu problema é que me identifico com minha profissão, mas não acho que a filosofia deva ser colocada no âmbito da atividade profissional. A filosofia é um modo de vida, não apenas uma profissão ou trabalho do qual você se livra quando chega em casa do escritório (se tiver um). Alguém pode ser um bom ou mau filósofo sem necessariamente se tornar um professor de filosofia ou um acadêmico em geral. Basta questionar permanentemente os quadros da realidade empírica. A formação filosófica torna a pessoa capaz de ler o que está por trás da realidade e concebê-la por meio de conceitos e estruturas; ela nos dá um método pelo qual podemos dar sentido a qualquer tipo de material apreendido, incluindo nossa própria biografia. Este livro não é de forma alguma um trabalho acadêmico ou escolástico, mas uma tentativa de comensurar as pátrias empíricas e conceituais em uma espécie de diário de viagem. Os elementos de biografia, ou melhor, de geografia pessoal que nela se delineiam, demonstram que a ideia da pátria como nação ou estado compartilhado por todos os tipos de ‘direita’ é errada: é apenas uma ideia abstrata que não tem real existência. O que existe na realidade é material e concreto: cheiros, cores, múltiplas coisas vivas e não vivas que nos ligam à experiência de uma pátria. As flores não têm nacionalidade, mas crescem ali, naquela área particular, que talvez nos lembremos de nossa infância ou que acabamos de inventar.

Elisabetta: Brecht, Deleuze, Guattari te acompanharam nessa reformulação da pátria. Em particular, sua reinterpretação de Aristóteles em chave deleuziana é surpreendente. Você pode detalhar esse aspecto?

Oxana: Não gosto da tendência, presente em algumas teorias contemporâneas, de ignorar tudo o que havia na filosofia antes de Deleuze. Na verdade, há muitas coisas na história da filosofia ocidental (falo da filosofia ocidental, porque a conheço melhor) que são absolutamente revolucionárias desde que as lermos com a mente aberta, para além de qualquer estereótipo. Adoro tratados antigos e volumes filosóficos, escritos por Platão, Aristóteles, Descartes, Spinoza, Schelling ou Hegel. Lá você sempre pode encontrar algo que soa realmente fresco e novo. A filosofia sempre começa com a luta contra o dogmatismo e a ideologia dominante. Ao contrário da ciência positivista, o modo como a filosofia desenvolve seus conceitos é tal que cada nova teoria não refuta as anteriores, mas não apenas se constitui em diálogo ou discussão com elas, mas as repete numa espécie de nova transcrição, na linguagem do está na hora. É como uma partitura musical com andamentos e variações diferentes, mas o motivo pode ser o mesmo. Assim, tomo o motivo das três almas – vegetal, animal e humana [vegetativa, sensitiva e intelectual] – que já existe em Platão e Aristóteles, mas que depois persiste ao longo da tradição filosófica. Gosto que em suas reflexões sobre reterritorialização e desterritorialização, assim como em seu conceito de ‘ritournelle’ (ou ritornelo), Deleuze e Guattari elaboram o que os antigos chamariam de alma animal. Escrevem sobre a relação do animal com o território e é neste contexto que explicam o que é o amor. Quando digo: te amo, te marco como meu território, minha casa: todas as canções de amor nesse sentido falam de pátria. Isso não é incrível? Mas a referência mais próxima de sua lista é justamente Brecht, porque o contexto de sua obra a que me refiro em meu livro me lembra, de certa forma, nossa situação histórica: a ascensão do regime fascista e as experiências de relocação. Eu diria que as reflexões de Brecht sobre a imigração como uma escola de dialética e seu discurso do exterior aos camaradas que ficaram na Alemanha sob o regime nazista e criaram uma resistência antifascista clandestina lá são mais do que relevantes hoje, quando a Rússia vive um momento muito sombrio. As “cinco dificuldades para escrever a verdade” de Brecht são também um manual, um ensaio sobre “como fazer”, um guia para o inferno.

Elisabetta: Seu livro foi publicado há dois anos, mas hoje é muito necessário, o que significa amar a pátria e como os russos podem amar a pátria hoje? Penso em quem fica, mas também em quem parte.

Oxana: Na época em que escrevi este livro, era movida menos por uma certa antecipação da guerra do que pelo desejo de compartilhar a felicidade que senti ao visitar os lugares de meu nascimento e infância. A experiência do retorno me fez reconciliar com meu passado, que era sombrio, aterrorizante e cheio de violência. Era como se as memórias desenterradas nesta jornada mágica tivessem um efeito curativo e me fizessem pensar muito. Por exemplo, eles me ensinaram que a pátria não é apenas um sonho, mas algo verdadeiramente material e cheio de vida, e que posso tirar algo dela. Um objeto que funciona como um portal para a continuidade da minha vida. Por exemplo, tulipas amarelas: toda vez que vejo essas flores, lembro-me delas crescendo selvagens em minha estepe no vale de Chuy, no Cazaquistão. Posso morar em qualquer lugar, mas um objeto da minha terra, mesmo o menor, sempre e imediatamente me ligará ao meu lugar de poder. Desde fevereiro de 2022, quando começou a guerra em grande escala contra a Ucrânia, meu livro recebeu muitos elogios. Por ser um pequeno livro de bolso, muitas pessoas o leem enquanto fogem do país, cruzam fronteiras, tentam escapar da polícia ou do exército. Recebi pessoalmente uma mensagem de um amigo que leu este livro em seu quarto de hotel no meio do nada, ao passar pelo controle de fronteira do aeroporto de Helsinque, no meio de uma multidão de passageiros fugindo da Rússia, com malas enormes e caixas de transporte com gatos, que escondiam seus rostos cheios de medo e vergonha. Perder a pátria é uma desgraça, mas talvez precisemos dela agora, precisamos nos tornar mais nômades, perder nossos privilégios e vagar por aí procurando o quê? Talvez liberdade? Agora, temos um muro de incompreensão entre os que partiram e os que ficaram. Os que saíram tendem a acusar os que ficaram de colaborar, de apoiar o regime de Putin com a mera presença no local. Na verdade, posso entender essa posição, mas não a compartilho. Eu sei o quanto é difícil sair e tentar se estabelecer em um novo país, onde você não é cidadão e tem muito menos direitos, dinheiro e coisas assim. Mas também sei o quanto é difícil ficar para quem não pode partir porque tem parentes, animais de estimação, alguém ou algo para cuidar, ou apenas coisas para fazer. Entre os que permanecem, há também partidários clandestinos e pessoas engajadas na ação direta. Como você pode agir diretamente quando está no exterior? Em meu livro, essa tensão entre os que partiram e os que ficaram foi descrita como a tensão entre as almas animal e vegetal. A alma animal precisa se mexer, enquanto o estilo de vida vegetal teimosamente fica aqui: aconteça o que acontecer, ficarei no meu lugar, até que venham me cortar. Nossa sobrevivência agora depende de nossa capacidade de criar um equilíbrio inteligente entre as almas animal e vegetal ou, melhor dizendo, criar cadeias de solidariedade entre essas duas formas de vida.

Elisabetta: Quanto mais dura a guerra, mais existe o perigo concreto de que na Ucrânia, mas também na Rússia, o amor à pátria se una ao nacionalismo, como evitar esse desvio?

Oxana: Como cidadã da Federação Russa, o estado que iniciou a guerra e cometeu múltiplos atos de violência e agressão contra a Ucrânia, não tenho o direito de dizer nada sobre o povo ucraniano e suas atitudes, mas só posso falar sobre meu país, que não é realmente o mesmo de minha terra natal. Nasci na Sibéria, que séculos atrás foi colonizada pelo Império Russo, e passei minha infância no Cazaquistão, que também foi colonizado pelo Império Russo, depois se tornou parte da União Soviética e depois um estado independente. Venho da União Soviética, um estado que não existe mais. A atual Federação Russa consiste em muitas regiões e territórios que foram conquistados, colonizados, anexados ou voluntariamente se tornaram parte da Rússia. Esses territórios são povoados por diversos povos indígenas com culturas, religiões e idiomas únicos. O nacionalismo em tal estado parece absurdo, mas ainda existe e quanto mais a guerra continua, mais ele cresce. Em tempos de guerra, as pessoas pensam menos e a lógica é muitas vezes substituída pelo medo, ódio e outros afetos negativos. A ilusão de que uma nação é melhor que as outras pode ajudar a reconciliar com uma realidade que, de outra forma, parece muito deprimente. “Eu sou russo, meu sangue é do meu pai!” – canta um popular cantor “patriótico”. Esta canção manifesta uma ruína existencial, quando o nacionalismo anda de mãos dadas com os valores patriarcais. Na Rússia de hoje, eles são chamados de “valores tradicionais”. A propaganda do Estado apela à longa tradição do forte derrotando o fraco e normalizando a escravidão, a dominação e a violência. Mas nós, feministas, sabemos o segredo: o “amor” patriarcal não é realmente amor, é abuso. O nacionalismo é como um relacionamento abusivo, onde o amor nada mais é do que a luta pela dominação. Portanto, o “patriotismo” tradicional implica guerra. Ao contrário, acredito que pode haver amor livre – para com outras pessoas de todos os tipos, assim como para com os lugares onde estamos, fomos, ou quem sabe um dia seremos felizes.

 


Oxana Timofeeva, nascida na Sibéria, leciona no Centro de Filosofia “Stasis” da Universidade Europeia de São Petersburgo, autora e membro do coletivo artístico Chtodelat [O que fazer]. Entre seus livros traduzidos para o inglês: Solar Politics (Polity 2022), History of Animals (Bloomsbury 2018), Introduction to the Erotic Philosophy of Georges Bataille (Moscow: New Literary Observer, 2009) e Como Amar uma Pátria (Kayfata 2020).

Elisabetta Michielin é autora e cooperativista, curadora da seção “Guerra ucraniana”, do site Storia/Storie.

 

 

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