Étienne Balibar: “A resistência Ucraniana é uma guerra justa”

Por Etienne Balibar

(a pedido de Philosophie Magasine, divulgado pelo autor por e-mail)

 

Tradução para o português por André Martins (NUBEA-UFRJ)

 

 

Em uma situação de incerteza tão trágica, em constante evolução, é preciso tomar posição sem ambiguidade. Ou ao menos tentar. O filósofo, a quem por vezes se credita uma clareza particular, não é o melhor situado para isso. Pois, por um lado, o filósofo não tem nenhum privilégio para isso: ele é um cidadão como os demais, que se exige, como todos, a responder com urgência, buscando se informar a fim de escolher seu campo nos “diferendos” políticos. Pensemos no decreto de Sólon (século V a.C.) punindo com o banimento quem tivesse a pretensão de permanecer neutro nos conflitos da cidade… Mas por outro lado, sua “vocação” comporta um tipo de dever de estado, digamos, “paresiástico”, que é de estar em desacordo ou de diferir no interior de seu próprio campo, para daí extrair seus pontos cegos. E sempre há pontos cegos. Respondendo à demanda de Philomag, me arrisco então a algumas “compleições” (sem ser exaustivo).

  1. Eu diria primeiramente que a guerra dos ucranianos contra a invasão russa é uma guerra justa, no sentido forte do termo. Eu sei bem que esta categoria é duvidosa, e que sua longa história no Ocidente (desde Santo Agostinho até Michael Walzer) não é isenta nem de manipulações ou hipocrisias, nem de ilusões desastrosas, mas não vejo outra que convenha e a retomo acrescentando-lhe as seguintes precisões: a guerra “justa” é uma guerra na qual não basta reconhecer a legitimidade do lado dos que se defendem contra uma agressão (critério do direito internacional), mas na qual é preciso se engajar ao lado deles; e é uma guerra na qual mesmo aqueles (dentre os quais me situo) para quem toda guerra (ou toda guerra hoje, no estado atual do mundo) é inaceitável e desastrosa, não têm, contudo, a alternativa de permanecer passivos. Pois a consequência seria ainda pior. Não encontro nisso portanto nenhum entusiasmo, mas faço minha escolha: contra Putin.

 

  1. Tal como ela se desenvolve sob nossos olhos, a guerra na Ucrânia (e portanto na Europa: a Ucrânia e a Rússia são nações europeias) tem uma dupla face. Tem duas características. É, localmente, uma guerra “total” contra um povo que diante do perigo de aniquilamento se mobilizou em uma unidade patriótica que apaga suas divisões tradicionais; uma guerra de destruição e de terror conduzida pelo exército de um país vizinho maior e mais poderoso, cujo governo quer engajar em uma aventura imperialista sem possibilidade de volta. Mas é também, mais amplamente, uma guerra “híbrida” na qual este mesmo vizinho, com alguns aliados espalhados pelo mundo, com interesses e princípios bastante heterogêneos, afronta o resto da Europa (da qual nós [franceses] fazemos parte) que é também um destacamento avançado da OTAN, isto é, uma aliança militar igualmente imperialista, sobrevivente de outra era, porém atualmente incontornável. Este afrontamento se desenvolve no terreno dos armamentos, das mobilizações de tropas, das comunicações e da informação, mas sobretudo das pressões e das contrapressões econômicas, que se mostram presentes no coração da guerra moderna. Quanto mais ela durar, mais, ao que parece, estes dois aspectos se tornarão inextricáveis. Cada um imporá sua “lógica”, sua “logística” e sua duração própria.

 

  1. Não há como não se estar pavorosamente pessimista quanto ao desenrolar do que está por vir (eu estou), no sentido de que as chances de evitar o desastre são ínfimas. Por três razões pelo menos. Primeiramente, a escalada é provável, sobretudo se a resistência à invasão for bem sucedida em se prolongar, e ela pode não fazer cessar as armas “convencionais” (cuja fronteira com as “armas de destruição em massa” se tornou bastante tênue). Do lado da guerra “total”, ela terminará por destruir sob nossos olhos um país, uma civilização. Do lado da guerra “híbrida”, ela terá custos gigantescos para o mundo inteiro (por exemplo, em termos de recursos alimentares para as populações do Norte e mais ainda do Sul). Em segundo lugar, se a guerra chega a um “resultado”, este será desastroso em todos os casos: se Putin atinge seus fins, isso é evidentemente desastroso, pela destruição do povo ucraniano e pelo encorajamento a outras iniciativas semelhantes; se Putin é forçado a parar ou recuar, isso será desastroso pelo retorno à política de blocos na qual o mundo se imobilizará. Nas duas hipóteses, será desastroso pela eclosão do nacionalismo e do ódio nos quais se mergulhará por muito tempo. Em terceiro lugar, enfim, porque a guerra (e suas consequências) retarda a mobilização do planeta contra a catástrofe climática e até mesmo contribui a precipitá-la, quando muito tempo já fora perdido.

 

  1. A guerra cria uma situação política totalmente nova na Europa e para a Europa, isto é, para sua “constituição” e sua “construção”. O aspecto que mais se enfatiza é o do reforço, de cima para baixo, da coesão dos estados, em particular através da militarização da União Europeia e o relançamento do debate sobre sua “soberania”. Acrescenta-se a isso debates que estão longe de findar sobre o interesse ou não de se proceder imediatamente a “ampliações” em uma situação de exceção: trata-se ou não de uma garantia de segurança, e para quem? Ou de uma forma de escalada? Mas há um outro aspecto, finalmente tão determinante quanto o primeiro: a afluência dos refugiados ucranianos no território da União Europeia, sem precedentes desde os deslocamentos de populações após a Segunda Guerra Mundial. Trata-se, e em uma escala ainda maior, do que eu chamei em 2015 (quando a chanceler Merkel tomou, contra todos, a decisão de acolher os refugiados da Síria) de um “alargamento democrático” da União Europeia. O território ucraniano (sobretudo as cidades arrasadas pelos ataques aéreos) se tornando inabitável, estes milhões de refugiados não voltarão “para casa” tão cedo. Será preciso então que eles estejam “em casa” na União Europeia. As medidas de urgência atuais são um primeiro passo, mas serão necessárias outras. Ou, para se dizer em outro código: a Ucrânia já entrou na Europa de fato, pela fração de sua população “em exílio”. A fronteira se deslocou para Oeste. Resta encontrar a fórmula institucional desta integração…

 

  1. Um perigo maior – talvez o principal se nos situamos no que Clausewitz chamava de “fator moral” da guerra – reside na tentação de mobilizar a opinião pública, que, com razão, simpatiza com os ucranianos, na forma de uma russofobia, cujos sintomas vemos aqui e ali, alimentados por um conhecimento apenas parcial da história russa e soviética, e pela confusão voluntária ou involuntária entre os sentimentos do povo russo e a ideologia do regime “oligárquico” atual. O chamado a se sancionar ou boicotar artistas, instituições culturais e universitárias cujo vínculo com o regime e seus dirigentes fora comprovado, é uma arma por si só (mesmo se podemos, sem complacência, observar a grande distância entre os intransigentes chamados ao boicote cultural e a realidade dos compromissos que continuam operando apesar das “sanções econômicas”, em particular no que diz respeito à compra de gás e seu financiamento). Porém, estigmatizar a cultura russa como tal é uma aberração, se uma das raras chances de escapar ao desastre reside precisamente na opinião do próprio povo russo. E pedir aos cidadãos de uma ditadura policialesca que “tomem posição” caso queiram continuar a serem acolhidos em nossas “democracias”, é uma obscenidade.

 

  1. Todas as complicações “filosóficas” que se possa querer introduzir (e há muitas), seja numa perspectiva de curto prazo, seja em vista do longo prazo, não podem todavia ocultar a urgência da situação. Ora, a urgência, o imperativo imediato, é que a resistência dos ucranianos se mantém firme, e para isso é preciso que ela seja e se sinta apoiada realmente, por ações e não simples sentimentos. Quais ações? Aqui começa o debate tático, o cálculo da eficácia e dos riscos, da “defensiva” e da “ofensiva”. Não é toda forma de engajamento em uma guerra ou para influenciar seu curso que é inteligente (mais uma fórmula de Clausewitz que me vem: a direção da guerra é “a inteligência do Estado personificada”…). Os exemplos abundam de táticas capazes de precipitar a derrota. Ou pior. Mas a inteligência nunca é de esperar para ver. Wait and see não é uma opção.

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