15M das eleições, entrevista com Javier Toret, de Barcelona

Por UniNômade, em 27/11/2014

 

A UniNômade entrevistou por skype o pesquisador Javier Toret, de Barcelona. Com um trabalho teórico sobre tecnopolítica de redes ativistas do 15M, colaborador de Manuel Castells no “Internet Interdisciplinary Institute” (IN3/UOC), Javier participou intensamente dos processos de discussão e articulação do movimento do 15 de Maio e seus desdobramentos nos anos seguintes. Em 2011, sob o contágio das primaveras árabes e Praça Tahrir, o 15M foi uma ventania de acampadas, organizações de bairro e mobilização pelas redes sociais, marcando o início de um novo ciclo de lutas em meio à crise da representação política e econômica na Europa. Três anos depois expressões do 15M ganharam o noticiário, articulando o desejo de mudança e a vontade de participação em partidos de novo tipo com aspirações eleitorais, como o Podemos, que rompeu com o bloco da “casta política”, um bloco unitário apenas simbolicamente dividido entre “esquerda” (PSOE) e “direita” (PP).
.
Depois, nasceu o Guanyem (“Ganhemos”, em catalão), que se organizou a partir de pessoas ligadas a movimentos sociais, na franja do 15M, na cidade de Barcelona. Nesta entrevista, colocamos algumas perguntas a Javier, que respondeu como pesquisador e participante dessas dinâmicas, a respeito do funcionamento e da composição principalmente do Guanyem, abordando por tabela também o Podemos e outros grupos organizados espanhóis, como o Partido X, o Process Constituent (PC), o Iniciativa per Catalunha e los verdes (ICV) e a Esquerda Unida (IU).
Guanyem
O Ganhemos surgiu em Barcelona com o objetivo imediato de ganhar as eleições municipais de 2015. Como é articulada essa dinâmica local, perpassada pela questão da autonomia da Catalunha, e o desejado efeito multiplicador das novas plataformas?

.

O Guanyem Barcelona nasceu num contexto de crise geral do estado espanhol, enredado em tramas políticas de corrupção. Ele surge num cenário político de desdobramento-mutação do 15M. Em parte, se articula como um projeto municipal para Barcelona, com questões do contexto catalão. Outra parte é o grupo organizado na Plataforma dos Atingidos pelas Hipotecas (PAH), uma luta contra os despejos, remoções e carestia da moradia. E muitos grupos mais. O Guanyem incorpora tanto ativistas que se conhecem desde o movimento alterglobalização dos anos 1990 e 2000, e também grupos mais vinculados à política local dos bairros. Têm pessoas não muito imbricadas nos movimentos, mais ligadas a uma concepção cidadanista, e ativistas que já atuam há muitos anos e participam de movimentos organizados, mas também muitos cidadãos que estão dando um passo a frente para implicar-se diretamente num novo projeto de cidade para Barcelona. Guanyem é um híbrido. A principal porta-voz do Guanyem é Ada Colau, que tem a capacidade de reunir essa composição no projeto voltado às eleições municipais de maio. É um projeto desde baixo, de viés transformador, que parte do mais local, um municipalismo constituinte. As eleições municipais da Espanha têm uma tradição de marcar momentos de mudança, basta lembrar aquelas de maio de 1931, que virou emblema numa frase famosa: “Espanha foi dormir monárquica e acordou republicana.” Com relação à Catalunha, vivemos uma situação especial que é a questão da relação dessa região autônoma com o estado espanhol. O Guanyem não se coloca nem contra nem a favor da separação, ele é a favor de ampliar o direito de decidir dos catalães, propõe a possibilidade de ser consultados a respeito do desejo de continuar ou não integrados à Espanha, mas também Guanyem está a favor do direito de decidir em muitos temas e assuntos. Guanyem quer devolver as instituições à gente.

O Ganhemos é, então, eleitoralista? Esse é o foco?

Sim, o Guanyem é um processo coletivo de participação voltado a construir uma candidatura vencedora para a prefeitura de Barcelona. Sua declaração de intenções é clara: ganhar as eleições. Mas ganhar, aqui, não é simplesmente ganhar a eleição. É disparar um processo de empoderamento cidadão, associado a dinâmicas de mobilização social e construção de contrapoder. Tem como objetivos concretos acabar com a desnutrição infantil, recuperar os direitos básicos (água, moradia, educação etc). Como eu disse, é um projeto eleitoralista com um fundo de municipalismo constituinte. O Guanyem acredita em garantir os direitos mesmo que tenhamos que desobedecer uma fração institucional do estado. O municipalismo constituinte é necessariamente plural. Hoje, o Guanyem comporta 16 agrupamentos de bairro e 6 grupos de trabalho, debruçados sobre 13 eixos temáticos. Essa organização permitiu fazer confluir pessoas que já estavam nas lutas pela moradia e direitos da cidade, tocando temas importantes dos coletivos e movimentos sociais — não todos, mas uma parte importante.

O Guanyem assume a pauta cidadanista, que a esquerda tradicional (na Espanha como no Brasil) gosta de desqualificar como antipolítica, discurso vazio anticorrupção e slogans mais morais do que políticos. Como o Guanyem articula a pauta cidadanista de maneira a fortalecer a luta por direitos, o vetor constituinte?

É um debate aberto, controverso, e posso falar a minha visão pessoal como pesquisador. O 15M mudou o eixo de coordenadas da ação política diante do estado espanhol. Mudaram as coordenadas, o 15M gerou uma reconfiguração do mapa de enfrentamento e dos posicionamentos políticos. O problema não é mais dividido entre “de esquerda” ou “de direita”, mas da gente, das pessoas, contra a casta política, os banqueiros, a máfia, as oligarquias, os negócios das grandes elites, em suma, contra o 1% que, governando, está levando o país ao desastre total. Em vez das divisões entre esquerda e direita, a percepção vai muito além. Depois do 15M, a polarização que se deu foi transversal em relação aos vários perfis sociais. Os companheiros do Podemos falam que a sociedade espanhola mudou o sentido comum com o 15M. O Guanyem também vai por essa direção, que não é mais ficar disputando a margem esquerda do tabuleiro. Teoriza-se muito sobre isso no Podemos, o Íñigo Errejón, por exemplo, a partir de uma reflexão gramsciano-laclauliana, situa o problema político como do populismo, da maneira de incorporar os muitos num processo conflitivo e inclusivo, articulador da disputa hegemônica.

E como o Ganhemos se estrutura, sua política de alianças, financiamento?

Desde a experiência do Partido X, passando pelo Podemos, até chegar no Guanyem, se tem uma cultura de fazer as coisas muito diferente nesse sentido. Baseada na transparência, numa abertura à participação muito diferente. O Podemos é um projeto que se lança sem se apoiar em aliança econômica alguma com grupos preexistentes. Mesmo os movimentos sociais, o Podemos não vai centrado em direção a eles, senão na construção de poder com o povo. Não se trata de acumular uma força social, e então dar uma expressão política e eleitoral. É um trabalho que gera um movimento em que outros podem confluir e onde pode acontecer uma recomposição de projetos distintos. O Podemos lança um movimento político, que joga e fala no terreno eleitoral, é uma força transversal, pega à esquerda e à direita. Obviamente tem riscos, mas é uma potência que nunca vimos antes no campo da representação, porque é um monstro entre o processo grandíssimo de articulação social e um partido de novo tipo. O Guanyem é um projeto que busca uma confluência de distintos atores, cidadãos, movimentos sociais e partidos políticos que estão pela mudança pra valer, pra mudar as regras do jogo. Com um forte protagonismo cidadão. Faz uma recomposição e busca a transversalidade sem propor nenhuma “frente de esquerda”. Hoje, o Guanyem trabalha com forças sociais e relações com outros grupos, como o Processo Constituinte (PC) e o Iniciativa por Catalunha (ICV) e Podemos de Barcelona. O financiamento se dá com várias campanhas crowdfunding, um financiamento distribuído e pessoal, de baixo custo, transparente na sua página na web.

E como foi a relação do Podemos, ou do Ganhemos, com a oposição de esquerda mais tradicional, agrupada na Esquerda Unida (IU)?

É um mapa complicado que depende de cidade pra cidade. O Podemos é uma estrutura en formação gigantesca, são 800 círculos ou grupos locais e temáticos, com gente associada e simpática ao projeto que se empoderou, além de ativistas mais antigos, em menor proporção. A Esquerda Unida está num momento de crise, luta interna e adaptação. Chegou a mudar seu candidato, colocando o Alberto Garzón, que tem 29 anos e vem do movimento 15M. A Esquerda Unida é muito estruturada, e em muitos sentidos superada pela situação. Podemos, em pouco tempo, já está cinco vezes maior em termos de potencial eleitoral e participação ativa diária das pessoas. A IU está dividida diante desse fenômeno, a parte mais avançada se aproxima do Podemos. Com alguns Ganhemos, houve conflitos, guerras políticas, e uma tentativa “entrista” de se apropriar das plataformas cidadãs, entrando em grupos articulados de fora para tomar os processo decisórios. Guanyem fez um pequeno guia de princípios que devem ser reconhecidos, a fim de evitar essas apropriações. No Podemos, também há tensões sobre isso, uma grande maioria nele não quer nem saber da Esquerda Unida, não quer fazer nada com eles. Houve um escândalo recente ligado a um Caja Madrid, relacionado a cartões de crédito, que não atingiu apenas os dois partidos principais (PP e PSOE), mas também a IU ou pessoas dos sindicatos.

Quais são as pautas consolidadas, ou pelo menos os indicativos, do Guanyem, por exemplo, sobre renda, aborto, imigrantes?

Esses conteúdos estão sendo discutidos agora, já que o Guanyem foi criado neste ano. Nada está fechado. Está em fase de definição. Em breve, devem sair posicionamentos ao redor dos treze eixos temáticos (sobre precariedade, sexualidade & gênero, urbanismo, direitos básicos etc). Aí serão formuladas as propostas e programas. Por outro lado, estamos usando uma plataforma de rede muito útil nesse processo de sondagem das prioridades cidadãs, que é o AppGree. É uma plataforma que permite encontrar as ideias em que haja acordo, numa comunidade de grande porte. Appgre não reduz as opções a duas ou três, ele permite que o usuário agregue outras posições, amplie a pergunta, desenvolva o tema. Os algoritmos pegam as respostas e montam grandes sínteses comuns, das posições discutidas tirando aquelas com maior ¨% de concordância. Isso é necessário quando você incorpora num processo de debate duas, cinco mil pessoas, cem mil pessoas. É preciso pensar essas tecnologias digitais como ferramentas não só de debate, mas pra transformar a estrutura da participação. A participação em rede é das dinâmicas mais importantes para a construção de pertencimento e subjetividade, para a intercomunicação, pra amadurecer o debate sobre como fazer, pra auto-orgaização midiática. Podemos e Guanyem são organizações multicamadas nos meios públicos, da TV às redes sociais às dinamicas e conselhos locais, e com essas técnicas articuladas entre si já ficou claro que podemos realmente vencer a casta. Na experiência do Podemos, no DNA dessas iniciativas está a experiência sul-americana: começa-se com um programa social-democrata, aposta-se baixo, sabendo que a batalha é grande e de longo prazo, mas mesmo assim se vai ao campo eleitoral para mudar a tendência e gradualmente avançar num processo constituinte. Toda aquela agitação do 15M, experiência e energia foram canalizadas, em uma parte importante, dessa maneira, nas eleições. É como um “15M no campo eleitoral”, que está agregando a ilusão coletiva de país.

.

.

Entrevista e tradução por Bruno Cava.


Mostrar
Ocultar