Junho antes de junho: o ciclo de lutas de 2013 em Porto Alegre, onde tudo começou

Por Guilherme Dal Sasso e Gabriel Bernardo, especial para UniNômade

O governo Yeda (2006 – 2010) representou um grande retrocesso para muitas categorias profissionais, para os professores do estado, com a última grande greve do CPERS, mobilização dos estudantes do Ensino Médio contra a enturmação, escolas de lata, para o MST (tendo a PM assassinado o trabalhador sem terra Elton Brum em 2009), para índios e quilombolas, e portanto engendrou forte mobilização dessas categorias e populações. O mote do governo era a busca do “déficit zero”, tônica pela qual tentava legitimar, com apoio da mídia local, a política de crise neoliberal. No entanto, buscando pensar os movimentos de resistência que emergem a partir da matriz de uma “nova política”, que irrompe em 2013, podemos pensar o ano de 2011 como um marco para esses movimentos embrionários.

A prefeitura da capital gaúcha já era tocada por José Fortunatti (PDT), ex vice-prefeito pelo PT na década de 90 e que foi para o PDT por ter sido preterido pelo Partido dos Trabalhadores na disputa pelo cargo majoritário. Fortunatti assumiu a prefeitura em 2010, quando o então prefeito José Fogaça (PMDB), que governava a cidade desde 2004, se licenciou para concorrer ao governo do Estado. Os governos Fogaça-Fortunatti contaram (e ainda contam) com uma ampla coalizão de partidos, desde a “centro-esquerda” morta representada pelo PDT, tendo o PMDB muita influência no governo, e partidos de direita como o DEM, o PP e o PTB compondo a base aliada. Suas políticas não diferem muito da tocada pela maioria dos prefeitos de grandes centros urbanos no Brasil: entrega do planejamento urbano às empreiteiras, carta branca às imobiliárias para a especulação, gentrificação travestida de revitalização, policiamento e assistência social voltados a um projeto higienista, parcerias público privadas que focam exclusivamente o lucro, política de mobilidade urbana focada no automóvel individual (e os implícitos alargamento de vias, construção de viadutos, corte de árvores, destruição de calçadas etc.), ao passo que o transporte público é gerenciado pelas máfias do transporte. Os resultados eram os também conhecidos e compartilhados em outras capitais: uma cidade irrespirável, estratificada, cara, paranoica e perigosa.

Em 2011, começava a se falar em Copa do Mundo e no seu legado: prometiam um metrô para Porto Alegre, o que animava a população. Prometia-se uma melhora substantiva do transporte público, revitalização do centro histórico, abandonado pelo poder público. Nesse cenário, Valter Nagelstein (PMDB), um vereador conservador e truculento que assumia a Secretaria Municipal de Indústria e Comércio (SMIC), começava a atacar os ciclistas que faziam a Massa Crítica chamando-os de “anarquistas radicais que querem derrubar a sociedade de consumo” no facebook – a prefeitura sempre se colocou frontalmente contra as bicicletas. Em seguida, o secretário propôs que o Largo Glênio Peres, praça histórica em frente ao também histórico Mercado Público, virasse um estacionamento. A ideia era “qualificar o público” que frequenta o Mercado. Tradicionalmente, o Largo Glênio Peres é habitado por uma multiplicidade, desde grandes feiras populares, como a Feira da Economia Solidária e a Feira do Peixe, até as singularidades que habitam a cidade para ganhar e exercer sua vida: pregadores evangélicos, artistas de rua, índios guarani e kaingang que vendem seu artesanato e tocam sua música, rodas de capoeira, músicos de rua, mágicos e um longo etcétera. Alguns anos antes, também concentrava inúmeros camelôs, que em 2009 foram removidos e realocados no “Camelódromo”, mudando as dinâmicas fluidas onde estes se inseriam e impondo-lhes um novo regime de controle. A prefeitura logo em seguida proibiu manifestações artísticas sem autorização prévia e as tradicionais feiras, preparando o caminho para trazer o “público qualificado” que só iria ao centro se fosse de carro.

Em resposta, ativistas e demais almas inquietas passaram a organizar, inspirados em São Paulo, a “farofada da gente desqualificada”, que logo em seguida se torna o “Largo Vivo”. Com a ideia de ocupar o Largo, jovens passam a chamar um evento todas as terças-feiras para resistir aos carros (que já passam a estacionar sem maiores constrangimentos a partir do final da tarde na praça), trazendo cangas, comidas, instrumentos musicais, malabares etc. O largo sempre esteve “ocupado”, mas o Largo Vivo torna-se a primeira forma de ocupação sistemática que busca chamar a atenção para o projeto elitista da prefeitura e organizar uma oposição também sistemática. O primeiro ano inteiro de Largos Vivos resume-se a ponto de encontro de um certo meio um tanto quanto restrito, mas alegre: são algumas dezenas, no máximo, que se encontram ali, mas o apoio de artistas de circo e de bandas locais de renome no cenário independente, como a Apanhador Só, ajudam a atrair mais gente.

No verão de 2012, a prefeitura inicia a primeira ofensiva na Cidade Baixa, único bairro boêmio da cidade e historicamente reconhecido como território negro. A dinâmica de concentração de bares nas mãos de poucos empresários já é notória, com o fechamento dos estabelecimentos de pequenos proprietários e a expansão de estabelecimentos pasteurizados e sem identidade, que mais se assemelham a redes de fast-food. A prefeitura e a PM, com apoio midiático, concentram as suas ações para reprimir os pontos de encontro da juventude, com foco nos jovens “emo”, na sua maioria entre os 12 e 18 anos, sendo grande parte oriundos da região metropolitana (que não conta com locais de lazer para essa juventude), que bebiam vinhos mais baratos e criavam um espaço mais livre para a expressão de sexualidades não-majoritárias na rua. Também foram alvo os bares na Rua José do Patrocínio, onde se bebia na rua a cerveja mais barata, motivo pelo qual reunia jovens da periferia, universitários, punks, hippies e demais “tribos”.  Foi como se a Prefeitura tivesse declarado guerra à juventude: se o ar irrespirável da cidade gentrificada já tornava a vida e o trabalho uma experiência de constante stress e sofrimento, agora era até impossível esquecer isso tomando uma cerveja na rua à noite. Uma parcela mais ou menos organizada da juventude, que puxava o Largo Vivo, explora outros modos de reagir, como a “Chinelagem na Padre Chagas”, intervenção que consistia em tomar um trago com isopor e chinelo na rua do bairro mais rico, onde os bacanas bebem na rua sem serem incomodados pela SMIC e pela PM.

No final de 2012, durante essa disputa silenciosa entre prefeitura e multidão em torno do Largo Glênio Peres, a prefeitura decide instalar um grande Fuleco no meio da praça[1]. Aquilo foi tomado como provocação deliberada por parte da prefeitura, e se organizou uma pequena festa de noite para protestar e quem sabe derrubar o bicho. A noite do dia 4 de outubro de 2012 foi marcada por um massacre do batalhão de choque, seguido no dia seguinte por aplausos da mídia corporativa[2].

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Foto: Juliano Möller Rodrigues/acervo pessoal

Na esteira dos acontecimentos, ganha força o Largo Vivo, que cresce em quantidade e qualidade: se antes era puxado pelo meio mais universitário-militante, ele passa a contar com uma diversidade cada vez maior de públicos. Como o evento era autoconvocado via facebook, outros grupos passam a fazê-lo: temos então edições do Largo Verde, puxado por grupos de reggae, edições temáticas do Marco Civil da Internet, com a presença do ônibus hacker e mais música eletrônica, edições temáticas da Marcha da Maconha e pela legalização etc. A prefeitura desiste de reerguer o tatu-bola, que também é derrubado em outras cidades no Brasil, e também do projeto sobre o estacionamento, embora carros ainda consigam estacionar no Largo após as 18h. O Largo Vivo é tomado hoje como referência não só por ter criado um novo ponto de encontro e organização da juventude, mas por ter sido considerado a primeira “batalha ganha” nessa tensão com a prefeitura, barrando o projeto do estacionamento.

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Foto: Leandro Anton/ Quilombo do Sopapo

O auge da espiral político-criativa da juventude contra a prefeitura se dá em 2013. No final de março, a prefeitura sobe mais uma vez a passagem, de R$ 2,85 para R$ 3,05. Nesse momento, o Bloco de Lutas pelo Transporte Público já convocava manifestações contra o iminente aumento desde fevereiro. O Bloco é uma experiência instável ao mesmo tempo em que bem-sucedida, pelo menos naquele ano. Articulado pela juventude de partidos de esquerda como PSOL, PSTU, PCB, PCR e até mesmo do PT, junto de organizações anarquistas como a Federação Anarquista Gaúcha (FAG) e também a Frente Autônoma, incluindo ainda coletivos LGBT, os chamados “DAs de luta” (Diretórios Acadêmicos combativos de algumas universidades), além de um grande contingente de indivíduos independentes, grupos de amigos “não-organizados” etc. O Bloco demonstra forte capacidade de mobilização e criatividade, além de conseguir superar (momentaneamente) problemas históricos, como as rixas entre anarquistas e partidários, dinâmicas de organização e modos de tomada de decisão etc. No início de abril, após o aumento, numa sequência de atos que tiveram crescimento exponencial de participantes e apoio da população, as marchas logo ultrapassam a barreira das 5 mil pessoas. É algo histórico para a luta contra o aumento da passagem, que raramente havia colocado mil pessoas nas ruas.

O ano de 2013 também foi marcado por outras ocupas que visavam bater de frente com projetos da prefeitura. Outro exemplo é o Ocupa Árvore (abril-maio de 2013), resistência contra duplicação da rua da Usina do Gasômetro (Av. Presidente João Goulart e Av. Edvaldo Pereira) e o consequente corte de mais de 115 árvores de grande porte, que compunham a paisagem do Parque Gasômetro (ignorado pela prefeitura). Além do corte de árvores, buscava-se lutar contra os impactos da obra: enorme aumento do fluxo de carros por uma via que deveria ser um parque e separa um dos maiores pontos turísticos, a Usina do Gasômetro e a orla do Guaíba, do resto da cidade. O infográfico abaixo ilustra bem o projeto:

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Crédito: Zero Hora

O acampamento durou 43 dias. Na madrugada da quarta-feira, dia 29 de maio, a Tropa de Choque invade de surpresa o acampamento e prende todos manifestantes, que se encontravam dormindo. Havia um boato de que a remoção ocorreria. Fizemos vigília até as 2 horas da madrugada, mas os ciclistas que circulavam pelo entorno da área não viam nenhuma movimentação suspeita. Às 5 da madrugada, a polícia ataca e leva todos presos, sem terem cometido crime algum (o que foi inclusive admitido posteriormente pela brigada militar). O corte começou a ser realizado às 6 da manhã e hoje a Avenida encontra-se duplicada e mais congestionada do que antes.

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Foto: Gênova Wisniewski

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Covardia na madrugada

Quando as coisas começam a esquentar em São Paulo, o Bloco de Lutas volta a convocar manifestações. À semelhança do MPL, havia adquirido legitimidade e capacidade de mobilização, sendo o principal responsável pelo chamamento dos atos. Não há, entanto, um dia específico de ruptura no “espírito” da manifestação: após os acontecimentos em São Paulo e o realinhamento do discurso da mídia hegemônica, os protestos já contam com a presença de mais de 10 mil pessoas, algo extremamente raro em Porto Alegre. O que se vê não foge à linha dos acontecimentos do resto do país: multiplicidade de pautas e demandas, seguindo em torno das questões de transporte, saúde e educação; movimentos feministas e LGBT se fazem presentes com a pauta #ForaFeliciano, outros setores, considerados “coxinhas”, mas principalmente de jovens “desorganizados” se somam com pautas anticorrupção (contra a PEC 37) e já se vislumbra com força questionamentos relativos à Copa do Mundo (saúde e educação padrão FIFA etc.).

No dia 10 de julho, seguindo a efervescência política que vive o país, militantes do Bloco de Lutas ocupam a Câmara dos Vereadores de Porto Alegre. Após essa rejeitar emendas de vereadores do PSOL (Fernanda Melchiona e Pedro Ruas) que garantiam a transparência dos cálculos de reajuste da passagem, o Bloco percebeu que teria de eliminar a casta atravessadora para criar a lei por mecanismos de democracia real e direta. É o principal desdobramento local da brecha democrática. Em meio a vereadores incrédulos, o Bloco de Lutas toma o plenário, encerra a sessão daquele dia e monta uma assembleia para tomar as primeiras decisões. Centenas de pessoas, possivelmente milhares, se direcionam à Câmara para garantir que não haverá reintegração de posse. Após um acordo com o presidente da Câmara, Thiago Duarte (então no PDT, partido do prefeito), centenas de pessoas se estabelecem no Plenário e passam a “viver” ali, se organizando em GTs, de Comunicação, Segurança, Limpeza, Alimentação etc. Durante o dia, rodas de discussão para a construção coletiva dos projetos de lei e outras atividades paralelas se desenrolam. Assembleias são feitas duas vezes por dia, uma no início, para decidir os afazeres do dia, e uma no final, para os grupos se comunicarem o que foi discutido e/ou decidido. A ocupação termina oito dias depois, após a elaboração de dois projetos, um que propõe o encampamento de todo transporte público de Porto Alegre pela Carris, a concessionária pública (ou seja, a estatização das outras três concessionárias que operam na cidade, que por sua vez são conglomerados de várias empresas/acionistas/mafiosos) e outro projeto que implementa o Passe Livre, cujo financiamento se daria através da maior taxação de grandes propriedades urbanas e/ou automóveis individuais, a serem regulamentadas pela Câmara dos Vereadores. A Ocupação da Câmara tem um saldo extremamente positivo, tendo sido bem-sucedida em termos de cooperação, por ter resistido por oito dias e conseguir um acordo onde os manifestantes se retiravam contanto que seus projetos fossem votados – e no entanto, foram arquivados.

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Primeiro dia de ocupação. / Foto: Vicente Carcuchinski

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Assembleia da Ocupa. / Foto: Alexandre Haubrich / Jornalismo B

Cabe uma menção honrosa à foto dos peladxs mascaradxs abaixo da galeria de presidentes da Câmara dos Vereadores. Revolta dos corpos contra a representação morta.

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Na esteira das lutas contra a gentrificação e o projeto autoritário de cidade, a Ocupação Saraí (2014) também é um marco: é uma das 20 e tantas ocupações urbanas de Porto Alegre, simbólica por exigir moradia popular no centro, ocupando um prédio inteiro em frente ao Cais do Porto, enquanto maioria das ocupações se concentra em terrenos nas periferias. Quarta vez que o prédio é ocupado, sendo a última remoção promovida de forma policial-espetacular no governo Yeda. Também é marcante pela colaboração do “novo ativismo”, que mobiliza jovens universitários e artistas, tecnologias como vídeo, facebook e uma estética forte e “renovada” com movimentos mais tradicionais, como o Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM) e a população trabalhadora que ocupa o prédio, produzindo ali sua vida, resistência e luta. A mobilização pela desapropriação do prédio contou com estratégias semelhantes a do Largo Vivo: fechar a rua, promover atividades com música, apresentações, feiras de troca e demais atrações para criar laços mais fortes com a vizinhança e notoriedade perante a sociedade. A vitória popular no apagar das luzes do governo Tarso, que encaminha a desapropriação do prédio nos últimos dias de seu governo, encontra-se hoje ameaçada pelo novo governo do estado, que diz não ter verbas para a execução da desapropriação. O prédio segue ocupado, mas sem resolução jurídica.

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Ocupação Saraí e evento na rua para divulgar a causa e fortalecer e ampliar laços com a comunidade. / Foto: Ramiro Furquim/Jornal Sul21

Hoje, existe uma rede incipiente de novas ocupas: Ocupa Violeta, Ocupa Caracol, Ocupa Kuna, Ocupa Chaminé (extinta), que se conformam de uma maneira peculiar. São ocupações “menores”, puxadas por jovens estudantes e trabalhadores, coletivos anarquistas e demais pessoas que iniciam ocupas em casarões abandonados. Essas iniciativas multiplicam eventos culturais de diálogo com a vizinhança, cine-debates, exposições artísticas, oficinas dos mais diversos artifícios (yoga, dança, teatro, instrumentos musicais, vídeo e edição, longo etcétera), até festas. Tendem a se localizar em regiões mais centrais, ao contrário das maiores ocupações, que são mais tradicionais, excluídas e alvo privilegiado da truculência policial, leniência do judiciário e indiferença dos governos.

Atualmente se desdobra na cidade o Ocupa Cais: iniciativa para tentar barrar/reverter a privatização de mais um patrimônio histórico-cultural da cidade. Processo semelhante ao Ocupa Estelita, mas em menores proporções: o projeto é transformar o Cais que dá origem à Porto Alegre e consiste numa das principais paisagens da cidade em um shopping. Desde a década de 40 há o Muro da Mauá (nome da avenida expressa que corta e separa o Mercado Público e o centro da cidade do Cais Mauá e do Rio Guaíba. Mesmo assim, o Cais era aberto e contava com atividades esporádicas: era possível transitar por ele e lamentar suas estruturas abandonas enquanto se tomava um mate e via um por do sol. Eventualmente havia feiras (Brasil Rural Contemporâneo), Bienal do Mercosul, Feira do Livro e era até mesmo possível alugar um espaço para fazer festas. Essas atividades contavam com um ótimo público, prova de que se trata de um excelente espaço de vivência e difusão cultural. O movimento tem buscado questionar juridicamente e politicamente a estratégia privatizante. A população, no geral, tem apoiado o projeto por ter pouca informação a respeito do projeto, e por conta do abandono completo do poder público tende a pensar que “finalmente vão fazer alguma coisa”. Atualmente, no entanto, isso começa a mudar. As obras ainda não começaram e a revolta contra o projeto cresce na medida em que o consórcio de empresários divulga o que pretende fazer com o cais, que inclui um shopping, torres comerciais e estacionamento com 4 mil vagas para automóveis. O movimento fez algumas festas dentro do Cais, e após o fechamento completo deste, tem buscado ocupar com shows, festas e encontros em frente ao pórtico central, para chamar atenção da população e convocar a indignação por não mais poder entrar nesse patrimônio histórico da cidade.

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Imagem emblemática, tirada da Ocupação Saraí e que mostra o Cais fechado e inacessível à população. Mais além, o Rio Guaíba, para o qual a cidade dá as costas. Foto: Laryssa Machado

Hoje vemos uma multiplicação de coletivos feministas, do movimento negro (cada vez mais forte forte no meio universitário) etc. A multiplicação de ocupas e eventos de rua desenham tramas complexas de resistência. São inúmeros eventos que não puderam ser abordados aqui, e mereceria destaque especial a greve dos rodoviários de 2014, mais uma das greves selvagens no Brasil, que se fez por fora e contra a estrutura sindical burocratizada e pelega, vinculada à Força Sindical, além dos já conhecidos inimigos encarnados no patrão, na prefeitura e na Justiça. A greve também foi bem sucedida e contou com enorme adesão da categoria. Ainda assim, o Bloco de Lutas se enfraqueceu até praticamente implodir, perdendo capacidade de mobilização enquanto se apostava num fortalecimento progressivo e num maior diálogo e cooperação com a categoria dos rodoviários, que prometia fortalecer ambas lutas e compor forças para uma transformação efetiva do atual sistema de transporte público.

O movimento estudantil também logrou conquistas com a ocupação da reitoria da UFRGS em 2014, arrancando uma maior cobertura na assistência estudantil por parte da universidade. Essa ocupação também foi selvagem à sua forma, vista que não contou com o apoio da então gestão do DCE, tocado pela direita “apartidária” e sequer com o apoio do grupo hegemônico que controla hoje o DCE, formado principalmente pela coalização das juventudes do PSOL e do PSTU. Quem organizou e ocupou a reitoria foram os “DAs de luta”, em sua maioria autogestionados, junto de grupos anarquistas, comunistas (juventude do PCB e do PCR) e pessoas independentes. O senso de oportunidade foi grande, pois a UFRGS já se encontrava fragilizada pela histórica “Ocupa Castelinho”: primeira ocupação do prédio da Faculdade de Direito, que tem o apelido de castelinho por contar com um prédio de arquitetura positivista à parte de todos os outros cursos no campus centro. A Faculdade de Direito é notória pelo seu conservadorismo e falta de diálogo com os estudantes. À época, o prof. Salo de Carvalho foi preterido num concurso com fortes evidências de fraude e motivou um levante dos alunos contra o chamado “pacto da mediocridade”. Salo, por suas posições progressistas, já havia sido perseguido e saído da faculdade de Direito enquanto professor substituto e tentava voltar via concurso. A ocupação logrou a anulação desse concurso e hoje ele é investigado pelo Ministério Público. No entanto, Salo nunca foi nomeado, como merecia.

Como já afirmado, diversas lutas, principalmente as tradicionais (como a recente greve dos municipários), ficaram de fora desse relato, mas também mobilizações de novo tipo, como a Marcha da Maconha e a Marcha das Vadias. O sentido que se buscou foi de localizar os pontos de atrito e os modos criativos de resistir e apresentar alternativas. Assim, na questão dos transportes temos o Bloco de Lutas e a Ocupação da Câmara de Vereadores – onde o excesso criativo extrapola, transborda a questão da mobilidade. O Ocupa Árvore se mobiliza por uma agenda ambiental e contra o carrocentrismo, confrontando diretamente o resultado das políticas desenvolvimentistas nos grandes centros urbanos. As Ocupas de moradia e cultura se confrontam contra a cidade-empresa e o crescimento urbano ditado pelas empreiteiras, buscando afirmar o direito à moradia e à cidade, assim como o Ocupa Cais, que busca uma outra relação das pessoas com a cidade, seu patrimônio histórico e os locais de convívio. Como se vê, à sua maneira, todas lutas se batem contra um modelo de cidade e seus dispositivos de controle e disciplina e as dinâmicas de reprodução do capital.

As resistências estão difusas pela cidade, e mesmo as experiências relativamente bem-sucedidas, como a ocupação da Câmara e a Ocupação Saraí, mostram seus limites ao esbarrar na institucionalidade vigente, ao mesmo tempo que demonstram o ímpeto das pessoas de tomarem as instituições de volta para si, ou até mesmo construir novas. Junho não acabou, e seus desafios parecem intactos. Ao contrário do otimismo militante que imaginava um fortalecimento progressivo das lutas, o que se vê não são barreiras a serem ultrapassadas, mas mais um labirinto que promove encontros e desencontros. Tanto quanto as resistências, os coletivos e os sujeitos mobilizados, se multiplicam também os desafios, na dificuldade de diálogo entre organizações distintas (partidos e anarquistas, grupos identitários etc.) e pautas distintas. Nas fissuras da cidade empresa, emerge uma outra metrópole possível, mas o projeto que por ora triunfa continua sendo composto por concreto, dinheiro, cassetete e burocratas.

Para um balanço final – provisório – desse ciclo em aberto, é fundamental refletirmos em duas dimensões. A primeira diz respeito às relações que se deram entre o(s) movimento(s) e o PT, que tradicionalmente aglutinou a esquerda e o campo de resistência nas últimas décadas. A segunda diz respeito aos impasses que a própria tarefa de requalificação das lutas enfrenta.

Quanto a primeira dimensão, é importante destacar que entre 2011 e 2014, o Rio Grande do Sul era governado por Tarso Genro, do PT. A reação go governo foi extremamente ambígua ao longo do auge do ciclo de lutas, em 2013. Por um lado, houve iniciativa do governador em “ouvir as ruas”, recebendo lideranças do Bloco de Lutas no Palácio Piratini e promovendo discussões nas redes através do Gabinete Digital, site do governo estadual criado como plataforma para discussões com a sociedade civil[3]. Nessa conversa, o governador pode ser interpelado diretamente por manifestantes e jornalistas a respeito da repressão operada pela Brigada Militar, entre outros temas. Essas iniciativas destoaram da reação de diversos governadores que optaram pela repressão aberta aos movimentos. Além disso, a juventude do PT participava ativamente do Bloco de Lutas e seus vereadores, como Sofia Cavedon, apoiaram abertamente a Ocupação da Câmara, ajudando a criar mediações com a presidência da mesma, então ocupada por Thiago Duarte, do partido do prefeito, auxiliando na tarefa de evitar a reintegração de posse demandada pela maioria da Câmara de Vereadores e pela mídia riograndense. Além disso, no auge dos protestos o governo encaminhou à Assembleia Legislativa um projeto de lei que estabelecia o Passe Livre intermunicipal para estudantes de baixa renda, medida que ia exatamente no sentido das demandas levantas pelos protestos.

Por outro lado, a repressão da BM seguiu forte, e também com apoio do governador. Tal apoio se demonstrou explícito no protesto ocorrido em frente ao Palácio Piratini, na Praça da Matriz, na noite do dia 27 de junho. Diferentemente dos outros protestos, aquela noite foi marcada não por uma marcha, mas por uma concentração na praça e pela presença de um carro de som (um caminhão, na verdade), em cima do qual lideranças do Bloco de Lutas criticavam o prefeito, o governador e a presidenta da República pela passividade perante os protestos e demais políticas conservadoras. Em seguida, a já mencionada banda Apanhador Só começou um show com a música “Despirocar”, cuja letra faz referências aos problemas da juventude que estão conectados à eclosão dos protestos. No entanto, a forma do ato estava deslocada. O carro de som materializava uma verticalidade entre lideranças e multidão que é justamente algo em xeque no que vinha sendo experimentado naquelas manifestações. Logo começou o show, muitas pessoas começaram a gritar fortemente “Protesto não é festa! Protesto não é festa!”, principalmente jovens da periferia, pelo que se podia perceber. Seguiram-se algumas discussões entre manifestantes em vários pontos da praça, e em seguida a BM iniciou uma repressão generalizada, com bombas de gás jogadas de todos os lado da praça.

Essa é uma noite marcante por apresentar impasses que diziam respeito à forma dos protestos, à relação do Bloco de Lutas e suas lideranças com a multidão, e fundamentalmente porque após a dispersão e repressão do protesto pela PM, o governador saiu do Palácio de governo para fazer uma fala parabenizando a Tropa de Choque por sua atuação[4]. O governador pessoalmente aplaudiu e cumprimentou os soldados da BM imediatamente após uma ação truculenta e repressiva dos mesmos. Tal colaboração com a repressão não foi evento isolado: no início de outubro, a Polícia Civil executou mandados de busca e apreensão na residência de diversos manifestantes, com destaque para Matheus Gomes, liderança da juventude do PSTU, Lucas Maróstica, da juventude do PSOL, e no Centro de Cultura Libertária Moinho Negro, onde também residia o militante anarquista Vincent Acrata. Todos foram indiciados por crimes de 1) formação de milícia privada; 2) posse e emprego de explosivos; 3) furto qualificado e 4) dano simples e qualificado. A reação do governo foi afirmar genericamente que não aceitariam qualquer tipo de “perseguição política” por parte da polícia ao mesmo tempo em que sublinharam que todo processo foi feito dentro dos marcos da legalidade do Estado Democrático de Direito. Em consonância com as operações no resto do país, a Polícia apresentou panfletos e livros(!) anarquistas como prova dos “crimes”, faltando apenas caracterizar as amostrar como “conteúdo subversivo”. Mais chocante que a conivência do governador com a repressão política foram as suas falas que faziam coro ao discurso midiático, apresentando não apenas os militantes, mas a ideologia anarquista como prototerrorista e criminosa, à semelhança da intelectual governista Marilena Chauí, que associou os black blocks ao fascismo.

Desse modo, ficou evidenciada a incapacidade do PT de realmente se abrir a novas configurações políticas. Se o partido se mostrou aberto no Rio Grande do Sul a tentar dialogar e absorver demandas dos protestos, foi completamente incapaz de compreender e muito menos apoiar as novas dinâmicas dos movimentos emergentes.

 

 

NOTAS

[1] http://zh.clicrbs.com.br/rs/esportes/noticia/2012/09/mascote-da-copa-e-exposto-no-centro-da-capital-3895557.html

[2] https://www.youtube.com/watch?v=MHJ_lAoI_0g

[3] http://www.rs.gov.br/conteudo/16651/tarso-genro-e-manifestantes-protagonizam-dialogo-inedito-nas-redes-/termosbusca=*

[4] http://diariogaucho.clicrbs.com.br/rs/dia-a-dia/noticia/2013/06/em-frente-ao-piratini-governador-elogia-postura-da-bm-durante-a-manifestacao-na-praca-da-matriz-4183803.html


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