O golpe que não houve

Por Giuseppe Cocco, na Multitudes, n.º 64, out. 2016 | Trad. Clarissa Moreira

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Comecemos pelo fim. Não houve golpe de Estado no Brasil, mas uma glasnost que conduziu à implosão do consórcio político que governava e governa o país: um cartel mafioso de grandes empresas privadas e estatais, compostas por algumas dezenas de patrões públicos e privados.  Evidentemente, a corrupção sistêmica não é uma novidade e certamente não foi inventada pelo PT. Lula, o PT e uma série de intelectuais brasileiros (ou não) utilizam como defesa esse truísmo e se escondem atrás de duas afirmações: o combate à corrupção seria seletivo e o justicialismo não será o terreno da transformação social. São duas afirmações falsas. As investigações judiciárias contra a corrupção estão tocando todo o sistema político e na realidade não poupam os partidos de direita: nem os grandes aliados do PT nem os grandes partidos de oposição. O peso relativo do PT, de Lula e Dilma, nos inquéritos, é, no entanto, proporcional a dois fatos simples: primeiramente, os juízes não caem no esquema de marketing do PT que se transforma em vítima do sistema como se não estivesse no poder federal por treze anos seguidos; e, em seguida, Lula e Dilma desempenharam um papel fundamental na amplificação e modernização da tradicional corrupção oligárquica. A corrupção de que se fala não é apenas uma velha venalidade da política, mas um verdadeiro regime de acumulação e de exploração de novo tipo, dirigido por um consórcio de interesses onde o PT é o principal organizador.

É este consórcio de interesses que está hoje em crise e implodindo. Esta implosão tem duas causas: o levante constituinte de 2013 [1] e a violenta crise econômica. Assistimos assim à triste decadência de um dos experimentos reais mais interessantes da esquerda mundial. O Partido dos Trabalhadores (PT), com seu líder (Lula), nasceu como uma espécie de partido em rede pós-socialista e paradoxalmente termina seu ciclo na mesma mistura de corrupção, burocracia e catástrofe econômica e social que o «socialismo real» nos deu a conhecer. O PT parecia representar uma saída para o socialismo e terminou como uma versão tropical da mesma mistura de novas e velhas formas de corrupção visando a continuidade do mesmo bloco de poder.

Estado de Calamidade Pública: de 17 de junho de 2013 a 17 de junho de 2016

Em 17 de junho de 2016, o governo do Estado do Rio de Janeiro (aliado do PT desde junho de 2006) decretou formalmente «Estado de Calamidade Pública». O objetivo do decreto era o de viabilizar a utilização dos poucos recursos financeiros disponíveis (e o dinheiro prometido pelo governo federal) para assegurar a finalização das obras e a realização das Olimpíadas no Rio de Janeiro. Os recursos mobilizados foram, sobretudo para pagar os policiais durante os jogos. De fato, desde o final de 2015, o Estado do Rio de Janeiro não paga seus fornecedores, paga em atraso de até um mês seus funcionários, fecha hospitais (inclusive o Instituto Médico Legal) e não termina obras.

Exatamente três anos antes, em 17 de junho de 2013, centenas de milhares de pessoas manifestavam no Rio de Janeiro não apenas contra o aumento das tarifas de transporte público, mas também contra mais um aprofundamento do modelo de cidade desigual, dessa vez por uma representação política onde a tradicional corrupção aparecia ainda mais insuportável devido ao consenso autoritário que reunia todas as forças políticas (do PT ao PMDB) e todas as esferas institucionais (Munícipio, Estado e União federal). Ao final da manifestação, uns enxames de dezenas de milhares de jovens tomavam de assalto a Assembleia Legislativa, ou seja, o templo do acoplamento carnal e mafioso entre os cartéis de empresas de transporte e de obras públicas e os representantes eleitos do sistema político.

Para compreender o que se passa no Brasil se deve, portanto, ter muito bem em mente estas duas datas e o que as separa: de uma parte, um movimento destituinte que acenava para a constituição de uma real democracia, movimento este sem precedente na história brasileira, e de outra parte, a confirmação de um sistema institucional que perdeu sua legitimidade e uma boa parte de sua efetividade (notadamente no plano econômico). Entre estas duas datas, temos o conflito político de grandes proporções que conduziu ao Impeachment da Presidente da República. Entre estas mesmas datas, fomos brindados com o festival de mentiras e mistificações lançados e replicados pelo PT e apoiadores durante as eleições de outubro de 2014.

Ceci n’est pas un coup d’État (Isto não é um golpe de Estado)

Não houve golpe de Estado no Brasil, de nenhuma espécie, nem mesmo parlamentar. Por um lado, o Impeachment é não somente previsto pela Constituição Democrática ( de 1988), como já foi utilizado com o apoio entusiasta do PT [2], contra Fernando Collor de Mello (eleito em 1989 e destituído em 1992). Por outro lado, todo o processo se realizou segundo as regras e sob a supervisão dos juízes do Supremo Tribunal Federal (a Corte Suprema Brasileira) onde oito dos onze membros foram nomeados por Lula ou Dilma. Dizer que não é um golpe de Estado não significa dizer que o que ocorre no Brasil é aceitável ou normal. Ao contrário, atravessamos uma crise muito grave, mas seus determinantes e seus resultados não são aqueles que o PT, o governo e a esquerda brasileira apresentaram e que a esquerda internacional quis corroborar.

Nos encontramos no capítulo seguinte ao processo que se iniciou de maneira autônoma com o grande levante de 2013, e que ganhou um novo sentido no início de 2014 com a abertura da investigação judicial da Lava Jato, sobre a corrupção na gigantesca estatal Petrobrás, tornando-se então uma crise profunda – e irreversível – exatamente no momento da reeleição de Dilma. O processo de destituição de Dilma não passa de mais um episódio na luta pela sobrevivência do sistema de representação política em estado terminal, em virtude dos desdobramentos cruzados do fiasco de imensas repercussões da política econômica conduzida por Dilma somado aos resultados devastadores das operações judiciárias contra a corrupção.  Dilma não foi objeto de um processo de Impeachment por ter feito algumas reformas um pouco mais radicais do ponto de vista social, mas porque ela já não conseguia governar nem tomar iniciativas diante da catástrofe econômica e sobretudo, não conseguiu enfrentar a onda crescente de deslegitimização provocada pela Operação Lava Jato.

Dois pontos de inflexão explicam a abertura do processo contra Dilma. O primeiro foi em novembro de 2015: a detenção de Delcídio do Amaral, líder do governo no Senado e o segundo foi a detenção de Lula para interrogatório (4 de março de 2016). A prisão do senador significou o desabamento de todas as tentativas por parte de Dilma e de seu partido, de convencer os dirigentes da Petrobrás e dos grandes grupos ligados ao setor da construção civil, a não colaborar com a justiça. Isto teve como consequência imediata a ruptura da negociação entre o poder executivo e o presidente do Congresso, Eduardo Cunha.  Este último queria se assegurar de não perder sua posição de deputado (e logo, a imunidade parlamentar) e se proteger da prisão em troca de não dar continuidade às inúmeras demandas de Impeachment contra Dilma. Uma vez que o governo Dilma não estava mais podendo assegurar esta proteção, Cunha escolheu o afrontamento para, por um lado, ganhar tempo (guardar ao máximo a imunidade parlamentar) e de outra parte, apostar na possibilidade de se tornar uma peça necessária e legítima nas grandes manifestações de massa para a destituição de Dilma [3] (que se repetiram desde o dia seguinte de sua eleição, ao longo de um ano e meio). A segunda inflexão veio das consequências da condução coercitiva de Lula pela polícia Federal para interrogatório. Enquanto Dilma tentava nomeá-lo ministro da Casa Civil para lhe oferecer imunidade parlamentar, o ex-presidente – chamando manifestações de massa em sua defesa – visitava Cunha e o Presidente do Senado (do mesmo partido de Temer e Cunha, incluídos em oito inquéritos de corrupção). Após uma longa reunião onde participaram também o ex-presidente José Sarney e o ex-Ministro das Minas e Energia (também PMDB), Lula aparecia com esta pequena trupe na tribuna do Senado Federal, com um exemplar da Constituição nas mãos para fazer duras declarações  contra a ditadura dos juízes. É a partir deste momento que, sob a liderança do vice-presidente, o movimento institucional pela destituição de Dilma se amplia e acelera, a partir de dois imperativos: retomar o controle de uma economia em queda livre e bloquear o processo judicial contra a corrupção. O que dissemos antes em termos políticos foi formalmente confirmado pela glasnost promovida pelos investigadores da Lava Jato. Em gravações feitas – publicadas pela imprensa no final de maio 2016 – um ex-senador e presidente de uma grande empresa estatal (Sergio Machado, que é um colaborador da justiça), os principais patrocinadores do PMDB (o presidente do Senado, Renan Calheiros), o Ministro do Plano de Temer (Romero Jucá) além do ex-presidente de tudo (do PMDB, do Senado, da República, etc.) José Sarney, explicitaram que o futuro governo interino de Temer teria dois propósitos: enfrentar a grave crise econômica e bloquear a operação Lava Jato a fim de proteger eficazmente o sistema político, inclusive Lula.

É claro que o chamado “golpe” de Estado é uma operação interna ao “golpe” que foi dado durante a reeleição (outubro de 2014). Estas escutas telefônicas fazem cair por terra o discurso do PT sobre a seletividade dos juízes. O PT não é de modo algum o único partido visado, mas pode ser o alvo principal por ter sido o partido no poder. Os quatro principais líderes do partido “golpista” (PMDB) figuram no âmbito de um mandado de prisão (suspenso por um juiz do Supremo Tribunal) e a Lava Jato também visa o presidente interino [4]. Portanto, temos um “golpe” engraçado: os seus principais atores estão sob a ameaça do estado e recebem solidariedade… de quem recebeu o golpe (o PT e seus senadores que criticaram os mandatos de prisão).

Estamos novamente na produção sistemática de enganos e ficções por parte da esquerda de governo e isto merece uma boa reflexão. Por um lado, este regime discursivo é aceito e amplificado pela esquerda intelectual global (ao mesmo tempo em que não se diz nada sobre o que está acontecendo na Venezuela chavista, que carece de tudo e onde a população passa fome); em segundo lugar, faz-nos pensar sobre a capacidade e determinação que a “esquerda” (especialmente a esquerda no poder) tem de manipular os dados subjetivos da luta objetiva e subjetiva. A “esquerda”, por um lado, perde o contato com a realidade material do que está acontecendo e, por outro lado, não só ignora a realidade, mas deturpa dados em função de suas necessidades e estratégias.

“Narrativas Fantasiosas”

Tudo o que está acontecendo é, de forma piorada, o que já havíamos previsto desde antes de Outubro e Novembro de 2014[5]. No entanto, previsões dissonantes caíam no ostracismo geral da esquerda brasileira e mundial. Se a esquerda governista estimulou cinicamente que se mistificasse o debate, se aproveitando disso, a “esquerda radical” precisa cultivar seus mitos e, para este fim, moldar a realidade segundo suas fantasias, passou a definir como «delírio» quando não, estupidez, qualquer coisa que não se dobrasse a esta deriva geral, mesmo se isso significasse jogar fora multidões nas ruas, e – desnecessário será dizer – sua própria autonomia. Neste caso, a doxa da esquerda é usada para manter a ilusão de que os “governos progressistas” da América do Sul não só teriam sido realmente um laboratório e uma maneira de sair do neoliberalismo, – ou a única- mas que eles continuam em bom estado de saúde.  Neste quadro, “(…) o triunfo das forças que estão no governo (o PT no Brasil, o MAS na Bolívia e no Uruguai o FA) permite afirmar a persistência do ciclo progressista[6] e novamente: “Esta ratificação prolongada no tempo afirma a derrota de tentativas neoliberais territoriais-regionais das elites, de retomar o controle político direto e de alguma forma, ainda mantém abertas as expectativas de uma dinâmica regional de maturação não diretamente subordinada à hegemonia ocidental neoliberal “. Esta análise, comprovadamente equivocada (a vitória eleitoral de Dilma foi uma grande derrota política e o início de uma reversão eleitoral geral que também aconteceu na Venezuela, Argentina e na Bolívia), não estava relacionada aos desafios reais, mas aos requisitos de uma posição de “esquerda”, que é definida pela primeira vez como luta contra o neoliberalismo (entre mercado e estado, melhor optar pelo último, ainda que este tenha estruturas reconhecidamente mafiosas) e também como antiocidental (entre China e os Estados Unidos, a China é melhor, mesmo que sufoque as lutas de classes).

O que é ainda mais grave é que a projeção idealista (uma esquerda que seria estatal e anti-imperialista) é totalmente mistificada: governos progressistas em geral e em particular o Governo do PT (Dilma), não são de modo algum antineoliberais e muito menos antiocidentais. O neodesenvolvimentismo de Dilma é absolutamente interno ao pacto neoliberal e é por isso que Lula passou tranquilamente de uma política à outra. Os “líderes” do PT estão preocupados com as taxas de crescimento e nada mais. Se as fortes doses de neodesenvolvimentismo não funcionam (na verdade, elas foram catastróficas) aumentam-se as doses de neoliberalismo, como fizeram entre 2003 e 2008 e, em 2014 e 2015. Não é coincidência que o todo-poderoso Ministro da economia de Temer era o homem forte da economia de Lula, durante oito anos. A política econômica do presidente interino é exatamente a mesma que Dilma estava tentando fazer e não conseguia, por causa da paralisia de sua base parlamentar. A defesa do PT e de Dilma é mesmo a defesa da “esquerda” como identidade vazia e abstrata (um caso real dos significantes vazios, à la Laclau): é mais importante se sentir bem como “esquerda” do que entender, em primeiro lugar, as dimensões de sua derrota esmagadora e por outro lado, perceber o nível de isolamento social da esquerda como um todo. Dilma tinha apenas 8% de aceitação e milhões vão às ruas pedir seu Impeachment? Este é o resultado da campanha dos meios de comunicação conservadores e aqueles que manifestam… são a elite branca. Está tudo explicado! Aqueles que não aceitam essa lógica autoritária são pessoas isoladas, possivelmente loucas ou irresponsáveis, com alianças estranhas… quando não estão diretamente ligados ao inimigo. A corrupção sistêmica da política se mostra como corrupção da subjetividade.

Quem seria o inimigo de um governo e um partido que governou com e pelo dinheiro dos grandes grupos de construção saídos da ditadura militar? Na verdade, a esquerda não precisa ser stalinista para trabalhar como… uma Polícia: a verdade da repartição pública (de esquerda) se afirma como superior à verdade da democracia.

O dispositivo bipolar do consenso de esquerda

Esta é uma boa oportunidade para ver como a doxa da esquerda funciona e para pensar a situação que deviam viver os dissidentes do bloco soviético – antes – e da China maoísta – depois. Eles foram perseguidos por criticar um regime que não só não deixava nenhum espaço para a democracia, mas que se aliava às forças da direita interna (a burocracia estatal, tecnocratas que controlavam simultaneamente os aparelhos produtivos e repressivos) e externa (a aliança de Stálin com Hitler, a diplomacia secreta da China com a administração Nixon), ao passo em que enquadravam os “dissidentes” como “agentes da direita”. E a esquerda internacional, de forma mais ou menos entusiasmada, conforme o caso, participava desse consenso.

Leiamos Simone de Beauvoir e seu “Ensaio sobre a China”, 484 páginas escritas a partir de uma visita organizada pelo regime em 1955 (e publicado em 1957) [7]. Beauvoir não se deixa enganar, mas ela concorda em jogar o jogo: “Os anticomunistas sorrirão de seus escrúpulos: o governo se permite dispensar a verdade quando conveniente. De fato. Mas esquecemos também que até o presente quase todos os chineses foram completamente afastados da vida política. Sofriam o seu destino na passividade e na ignorância. Um conhecimento ‘dirigido’ representa um imenso progresso face à essa escuridão… e até mesmo por si só é capaz de dissipá-la[8] (grifo nosso). Assim, vejamos o dispositivo: o anticomunismo explica e, especialmente, justifica tudo. A informação dirigida é um avanço e serve a que propósito? “A situação na China é absolutamente incomparável com a da Hungria ou a da Polônia. Longe de sacrificar a massa chinesa a um princípio abstrato ou a um futuro mítico, como alegado pelos anticomunistas, o regime, promovendo a indústria pesada, serve aos interesses distantes e imediatos de toda a população. [9] Esta é certamente uma defesa de boa-fé, com a convicção de que sem indústria pesada, a China estaria condenada a ser um vassalo da URSS e “recairia no atraso infernal da superpopulação e da fome.[10]  Mas, a boa-fé funciona como um mecanismo moral de polarização: não apoiar a industrialização forçada, se atrever a criticá-la, significaria alinhar-se aos anticomunistas ou ser um anticomunista. O fato é que o “grande salto” em direção da indústria pesada – apenas dois anos após o lançamento do livro de Beauvoir, se transforma em pesadelo: “Em 1959, 1960 e 1961 (a China atravessa) a maior fome não só da história chinesa, mas de toda a história». [11]

Ao contrário do que dizia Beauvoir, Jean-François Billeter recorda que nenhuma fome havia atingido todo o país como naquele caso. Aqui é importante ressaltar que o mecanismo do desastre não é apenas a escolha do tipo de planificação (indústria pesada e a proliferação de pequenos altos-fornos na casa de todos os camponeses), mas a organização de um consenso forçado, ou seja, a “mentira generalizada” [12]. É onde reside o problema: o apoio à industrialização pesada pode ser um engano, mas justificar a manipulação da informação em nome da luta contra o anticomunismo, não é. Criticar, exercer o seu direito de fuga, é ser anticomunista. Mata-se dois coelhos com uma cajadada só: o princípio da democracia radical vai para o lixo e a mistificação da realidade torna-se o método de comunicação de massa escolhido. Como morreram dezenas de milhões de pessoas na China maoísta? “Elas não morreram de cansaço ou de doença, como é geralmente o caso nas épocas de fome, mas apenas de fome e em silêncio, enquadradas por um regime que permaneceu senhor da situação. [13]” Em 1974, depois de quase vinte anos, Roland Barthes – durante a viagem da equipe da Revista parisiense Tel Quel à China – teve que se limitar a confiar suas críticas ao seu diário de viagem, num estilo blasé entediado: “Discurso mortal, comparação passado / presente.  Eu olho para o meu copo de chá: as folhas verdes se abriram e formam uma camada no fundo do copo . Mas o chá é muito leve, insípido, mal chega a um chá de ervas, é água quente “. O que o regime divulga é água quente, mas a informação é muito mais controlada do que o preparo do chá: “O fato incontestável, o bloqueio completo das informações, todas as informações, do sexo à política. O mais surpreendente é que esse bloqueio seja bem sucedido, isto é, que ninguém, independentemente da duração e das condições da sua estada, não tenha conseguido forçar nenhuma brecha em qualquer ponto que seja[14].

A esquerda, tanto nas suas experiências realmente existentes (URSS, China, Cuba, Venezuela e, em termos muito paradoxais, o PT no Brasil) e nas suas redes intelectuais, simultaneamente elimina o conflito (toda crítica é ” anticomunista” ou “narrativa fantasiosa” que a polícia do pensamento atribuirá a um “desvio” qualquer) e, portanto, a verdade. Encontramo-nos exatamente na mesma situação mencionada por Maurice Merleau-Ponty sobre a URSS e a desestalinização e mais amplamente, a política paranoica [15]. Muito antes do Relatório de Khrushchev, ele escreveu, “ficou estabelecido que os cidadãos soviéticos podem ser deportados no decurso de um inquérito, sem julgamento e sem limite de tempo (…) É provável (…) que (…) o número total de detidos remonte à casa dos milhões: alguns dizem dez milhões, outros quinze“. Merleau-Ponty tirou suas conclusões: “A menos que se seja um louco, admita-se que esses fatos colocam inteiramente em questão o significado do sistema russo.”[16] O autor escreveu isto em 1950 e já captava a armadilha que o  movimento “comunista”  não apenas encontra, mas construía: “Se os nossos comunistas aceitam estes campos e a opressão, é que eles esperam a sociedade sem classes através do milagre da infra-estrutura.”

Se o PT de Dilma e Lula organizou os campos de trabalho das grandes barragens e megaeventos esportivos, juntando-se carnalmente em corrupção com oligarquias  neoescravagista (grandes  grupos de construção de ditadura e o PMDB  de Temer, de Sarney e Calheiros), é que ele acredita que o desenvolvimento é algo bom e necessário e… paciência se é muito ruim para os índios ou ainda melhor, uma vez que estes serão proletarizados e “nacionalizados” (e tanto melhor em relação aos subornos recebidos). Em 1950, a crítica de Merleau-Ponty à URSS era profunda e não respeitava nenhuma ortodoxia, mas ele sentia ainda a necessidade de proclamar um certo grau de fidelidade à “ideia de comunismo”: “É mais urgente manter algumas ilhas onde se ama e pratica a liberdade do que ir contra o comunismo” [17]. Mas é precisamente este mecanismo que o “comunismo realmente existente” (inclusive sob forma de movimento intelectual) implementa contra a liberdade e, portanto, contra a verdade. Seis anos mais tarde (em 1956), antes da repressão soviética dos comunistas húngaros, Merleau-Ponty propõe uma reflexão “sobre a desestalinização”. Em primeiro lugar, Merleau-Ponty ressalta que mesmo “comunistas muito disciplinados (…) repudiaram solenemente o princípio de que nunca se deva apelar ao exterior nas lutas entre comunistas[18]. Simone de Beauvoir, no mesmo período, mostra que era suficiente ir da URSS para a China para dar novamente à “disciplina” perdida toda a sua rigidez. As inúmeras posições intelectuais tomadas sobre o “golpe” no Brasil mostram que este mecanismo está ainda ativo, mesmo se a pureza ideológica da década de 1950 já tenha se perdido. Merleau-Ponty justamente disse que “a repressão de Budapeste (prova) que nenhum (dos) princípios (do comunismo) sairá incólume, (e) que a desestalinização nada representa se não significar uma reforma radical do “sistema” “[19]. De fato, não foi Stalin o problema, mas o modo de funcionamento da “esquerda” em geral. Vejamos como Merleau-Ponty prossegue, incluindo o uso do Relatório Khruschev no XX Congresso do PCUS: “O custo real da produção não está relacionado com o custo previsto e a produtividade não é dirigida. Tudo isso, no final das contas, deve aparecer em algum lugar: chega um momento onde os disparates entre a vontade e os resultados são óbvios. Assim, a pressão dos fatos é tão forte que o sistema renuncia a fazer contas [20]. Isto é exatamente o que aconteceu, em diferentes graus, na Venezuela do “socialismo do século XXI” (onde agora a população carece de produtos básicos), Argentina (onde as estatísticas sobre a inflação, a dívida, a pobreza e a desigualdade eram embelezadas) e Brasil: Dilma foi reeleita em nome de uma saúde econômica inventada, em um país literalmente falido: perda de 10% do PIB per capita, menos 20% de produção industrial, inflação de mais de 10%, a dívida pública duplicou em um ano no Rio, onde tivemos os Jogos Olímpicos em agosto de 2016, o estado não paga regularmente os seus funcionários durante meses (nem mesmo a polícia ), as dívidas não são pagas, a Petrobras está praticamente falida, assim como a Eletrobras, o maior grupo de telefonia entrou com pedido de falência, quatro refinarias em fase de conclusão nunca serão usadas etc. No Marketing de esquerda, tudo é explicado pelos complô do imperialismo, da mídia e da “direita”, como se eles não estivessem ligados carnalmente: “Um regime que quer fazer mas que nada quer saber– continua Merleau-Ponty – trata o fracasso como sabotagem e a discussão como traição [21]. Referências mudam, mas o mecanismo é o mesmo. Ironicamente, é precisamente na maquiagem das contas que ocorre o acerto de contas no Brasil (impeachment), porque o PT não detém – como o chavismo na Venezuela – o monopólio do poder e seus aliados “conservadores” tem uma relação diferente com a contabilidade: paradoxalmente, a competição intercapitalista precisa de uma parte de verdade sobre a verdade da exploração.

O que o XX Congresso do PCUS, portanto, tentava fazer era “a denúncia de uma vida fictícia e verbal, a crítica do nominalismo e fetichismo.”

No entanto, na sua análise, Merleau-Ponty é lapidar não tanto sobre o stalinismo, mas sobre a tentativa de salvá-lo que se percebe na desestalinização e é exatamente de lá que se deve recomeçar: “é pedido à ditadura de se desafiar sem ser deixar eliminar, e ao proletariado de se libertar sem rejeitar o controle da ditadura. É difícil, quase impossível. O mundo tem a escolha desse caminho ou o caos. É em formas sociais ainda a criar que uma solução deve ser procurada[22]. Mas a esquerda no poder, é , ontem e hoje, na França de Hollande e no Brasil de Lula e do PT, repressão, desqualificação e mistificação das lutas que tentam inventar novas formas sociais. É por isso que o levante de junho de 2013 era insuportável para o PT e seus intelectuais, porque trazia algo novo.

Como não pensar em Vasily Grossman, o grande escritor soviético que escreveu as crônicas mais lidas narrando as batalhas realizadas pelo Exército Vermelho em Stalingrado, que teve toda a sua família exterminada pelos nazistas e que, uma vez tendo chegado em Berlim junto ao Exército Vermelho, se maravilhou em seu diário: “o comandante (general Berzari) teve uma conversa com o Burgermeister (Prefeito), que lhe pergunta o quanto será pago às pessoas mobilizadas para trabalhar para fins militares” e destacou: “na verdade, as pessoas aqui parecem ter uma ideia muito precisa dos seus direitos[23] (grifo nosso). O cidadão soviético está surpreso que na capital em ruínas da Alemanha nazista, as pessoas estão preocupadas com os seus direitos e ousam reivindicá-los face ao ocupante: é que, paradoxalmente, o regime que emergiu da Revolução se transformou em seu oposto, eliminando o que Marx tinha retomado de Maquiavel, “a idéia de que a história é uma luta e que a política é uma relação com os homens, em vez de com os princípios.” [24]

A falta de alternativas

Pode-se replicar que não se trata disso, que o Brasil de 2016 não é a União Soviética, e menos ainda a China maoísta de 1950. É verdade, a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. E não estamos apenas na segunda repetição. O que a esquerda é capaz de reproduzir é mesmo este mecanismo, entre um estado de emergência e a mistificação de um golpe inexistente para impor seu oportunismo e esmagar toda crítica. Não se deve ver diferença entre a opção abertamente neoliberal de Hollande e os gritos contra o “golpe” do Brasil de Lula. Estes são os dois lados de uma mesma esquerda a que temos realmente que dizer adeus: “O próprio do stalinismo ou oportunismo de esquerda, diz Hervé, é fazer uma política de colaboração e manter uma ideologia intransigente. O acordo estrondoso, a paz vociferada, a mistura de concessão política e abuso verbal, são a própria definição do stalinismo. “[25]

Um dos mecanismos perversos do consenso de “esquerda” opera na base da afirmação “não há alternativa”. No entanto, a falta de alternativa não é um dado natural, muito menos o fruto dessa implosão do pacto mafioso ao qual o PT tenha aderido, mas o produto de uma estratégia deliberada de destruir qualquer alternativa possível. Assim, o movimento de junho 2013 foi destruído. É sempre de acordo com a mesma lógica que a candidatura de Marina foi impedida primeiro e depois esfacelada. Da mesma forma, o falso discurso sobre “o golpe” inexistente continua a produzir esta “falta” de alternativas e de falsificar o debate. Não haverá alternativa enquanto permanecemos no terreno imposto por essa esquerda. O que precisamos é  voltar ao homem revoltado, ao meio-dia do pensamento, onde a revolta nega a divindade para compartilhar as lutas e o destino comum [26]. É bem isso que Claude Lefort vê em Arquipélago Gulag, quando ele aponta como Solzhenitsyn , após as críticas que fez à revolução, se inflama na “descrição das grandes revoltas dos condenados” que lhe “inspiram páginas que estão entre as mais belas da literatura revolucionária”[27]:  a revelação da “(…)  revolta dos zeks (Zek, diminutivo da palavra russa zaklioutchennyi, significando preso), e de uma maneira geral, a sua nova resistência, através do qual eles afirmam-se como políticos, retomam a palavra e começam a recuperar a sua dignidade de homens. “[28] O que o condenado do sistema repressivo infame resultante da revolução acaba pensando como uma alternativa … é exatamente a revolução ou parafraseando Camus, o homem revoltado. É na exclamação de Solzhenitsyn que as alternativas repousam: “Ó força dos movimentos populares. Como você modifica rapidamente os dados de política. “[29]

 

Giuseppe Cocco, participa da Rede Universidade Nômade, é professor da UFRJ e autor de vários livros, como Glob(AL), Mundobraz e Korpobraz.

NOTAS

[1] Cf. Multitudes, Majeure 56 – “Devenir-Brésil post-Lula”, Paris, 2014, http://www.multitudes.net/category/l-edition-papier-en-ligne/56-multitudes-56/

[2]  Durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) o PT tentou o seu Impeachment várias vezes.

[3] Giuseppe Cocco, “Le mouvement d’indignation au Brésil face à l’austérité néolibérale de Lula et Dilma, Multitudes, n.59, disponível em http://www.multitudes.net/le-mouvement-dindignation-au-bresil-face-a-lausterite-neoliberale-de-lula-et-dilma/

[4] Matheus Leitão, “Deleção de Sergio Machado atinge Temer”, O Globo, 16 juin 2016.

http://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/delacao-de-sergio-machado-atinge-temer-governo-quer-congelar-gastos-jornais-de-quinta-22.html

[5] Barbara Szaniecki e Giuseppe Cocco, “Maledetto sia giugno: il Brasile un anno dopo”.  http://www.commonware.org/index.php/cartografia/479-maledetto-sia-giugno. Giuseppe Cocco, “Dilma e Aécio são o Estado contra a sociedade”, Entrevista por Patricia Fachin, IHU-Online http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/536610-dilma-e-aecio-duas-faces-de-um-mesmo-esgotamento-entrevista-especial-com-giuseppe-cocco-

[6] Sandro Mezzadra y Diego Sztulwark, “Imágenes del desarrollo, ciclo político y nuevo conflicto social”, 3 novembre 2014. http://anarquiacoronada.blogspot.com.br/2014/11/anatomia-politica-de-la-coyuntura.html

[7] La longue marche, Gallimard, Paris, 1957

[8] Ibid., p. 240.

[9] Ibid., p. 161.

[10] Ibid.

[11] Jean François Billeter, La Chine trois fois muette, Allia, Paris, 2000, p. 48.

Billeter fala de trinta a quarenta milhões de mortos, de acordo com diferentes fontes. Slavoy Zizek cita a biografia de Mao para falar cerca de 38 milhões de mortos no mesmo período (início de 1958), devido, também às exportações de trigo para a URSS em troca de tecnologia nuclear e de armamento.

“Introduction” à Mao, “On practice and contradiction“, Verso, London, 2007, p. 10.

[12] Billeter, ibid., p. 47.

[13] Ibid., p. 48.

[14] “Le supplice chinois de Roland Barthes” http://www.pileface.com/sollers/spip.php?article811

[15] “L’homme et l’adversité”, Rencontres Internationales de Genève, 1951, Signes (1960), Gallimard, Paris, p. 405.

[16] “L’U.R.S.S. et les camps”, 1950, Signes, cit., pp. 424-5.

[17] Ibid. p. 438.

[18] “Sur la déstalinisation”, 1956, publié dans Signes, cit. p. 472.

[19] Ibid., p. 474.

[20] Ibid., p. 476.

[21] Ibid., p. 480.

[22] Ibid., p. 488.

[23] Antony Beevor & Luba Vinogradova, Un escritor en guerra. Vasili Grossman en el Ejercito Rojo, 1941-1944, Traduction de l’anglais à l’espanhol de Juanmari Madariaga, Crítica, Barcelona,  2012, p. 410.

[24] Maurice Merleau-Ponty, “Note sur Machiavel”, Communication au Congrès Umanesimo e scienza politica, Rome-Florence, septembre 1949, publié dans Signes, cit., p.357.

[25] Merleau-Ponty, Cit. , p. 491

[26] Albert Camus, L’homme révolté, Gallimard-Fólios, Paris, 1951, p.381.

[27] Claude Lefort, “Sur L’archipel goulag” (1978), Encyclopédie Universalis (supplément), dans Le temps présent. Écrits 1945-2005, Belin, Paris, 2007,p. 371.

[28] Ibid., p. 372.

[29] Apud Lefort, ibid., p. 373.

  • Carlos Henrique

    No romance do Cocco falta alguns personagens: a direita que foi as ruas em 2013 e o papel da mídia no apoio ao não Golpe. Aliás, como é que uma narrativa do que aconteceu de 2013 em diante só use a palavra mídia e imprensa uma vez? COMO É POSSÍVEL?
    Enfim, compromisso com os fatos, zero. Mas daria uma boa ficção para a elite política do país se sentir melhor.

  • Alexandre

    A direita foi às ruas – e tem esse direito! – em 2013, assim como as esquerdas. Não foi um movimento polarizado e ideológico, mas difuso. E não houve golpe. O papel da mídia é superdimensionado – como mostraram as eleições de Crivella e Trump. O PT foi durante 13 longos anos a elite política do País.

  • Carlos Henrique

    Primeiramente, repetir para si mesmo que não houve golpe não muda a realidade. É um mantra que você a direita alucinada desse país repetem, mas quando se mudam as regras no meio do jogo para tirar um grupo do poder, isso é exatamente um golpe.
    Segundo: se o PT fosse elite, estaria no poder até hoje e não sofreria impeachment com uma justificativa que nunca resultou em punição a presidente algum.
    E terceiro, para alguém dizer que o papel da Rede Globo e dos grandes jornais no episódio do Golpe é superdimensionado seria preciso apresentar algum argumento qualificado, algo além de uma analogia deslocada. O PT emplacou quatro eleições e sempre com a mídia contra. Isso não quer dizer que o resultado das eleições não tenham sofrido influência do efeito da campanha que a mídia fez contra o partido.
    Das transmissões ao vivo das manifestações conservadoras de 2013 a 2015, do uso que o Sérgio Moro faz dos vazamentos seletivos, até as falsas denúncias que ocorrem cotidianamente no jornais contra Lula, dizer que o papel da mídia é superdimensionado parece um delírio.

  • Alexandre

    Seu primeiro argumento volta-se contra você mesmo: não adianta dizer que não houve golpe – inclusive porque o processo foi chancelado elo Legislativo e Judiciário. Mais: quem subverteu as regras do jogo foi Dilma, ao mentir descaradamente. Para ela, até saiu barato!
    Se a Globo, ou o resto da mídia, tivesse todo esse poder, o PT não teria chegado ao poder e ficado lá por tanto tempo. Aliás, a mídia, mesma a grande mídia, não é monolítica como sugere. Basta ver que o Boulos escreve na Folha!
    As transmissões cobriram todas as manifestações, inclusive as maiores da História – pois era um fato jornalístico relevante. Cobriram até os gatos pingados que, uniformizados, apoiavam o PT.
    Lula, se fosse um cidadão comum (e pensei no que ele falou sobre o Sarney) já estaria preso. Há muita coisa pesando contra ele.

  • Carlos Henrique

    Meu primeiro argumento se volta contra mim? Será? O Golpe de Estado de março de 1964 foi chancelado pelo legislativo e pelo judiciário ou não? O STF, o Senado e a Câmara deram validade jurídica e política ao Golpe ou não? Ou você acha que também não houve Golpe em 1964? Nunca houve Golpe nesse país que tenha criado um atrito entre Judiciário e o Legislativo. De 1889 a 2016 todos os golpes foram respaldados pelo judiciário. Um pouco de história não faz mal.
    O PT esteve no poder apesar da oposição da imprensa. Não há contradição nenhuma nessa questão. Ela aumentou e deu combustível a oposição. E qualquer análise que não leve em conta o papel da imprensa no Golpe de 2016 tem pouca ou nenhuma validade. É não mais que uma ficção para auto-justificação de uma posição que não encontra qualquer ponto de apoio nos acontecimentos.
    Imagine contar essa história daqui a 10 anos, e alguém dizer, “não, a imprensa não teve papel algum, foi a pura e espontânea força da sociedade organizada que derrubou a Dilma”. Fala sério… Fantasia da esquerda alucinada.

  • Alexandre

    Sim, volta-se contra você. E 1964 nada tem a ver com o processo de 2016. Houve um fato jurídico e a necessária contextualização política, o que está na natureza do processo. Para se lidar com a História é preciso saber interpretar os fatos. Dilma mentiu ou não (para se eleger)? Ou os impeachments pedidos pelo PT devem ser esquecidos? PS: muitos dos que clamam contra 1964 apoiam as ditaduras de esquerda, principalmente a de Cuba (que treinava guerrilheiros desde o início da década de 1960, diga-se).

  • Carlos Henrique

    Meu caro, a abertura do processo de impeachment não teve absolutamente nada a ver com verdades ou mentiras de campanha. Tem a ver com uma manobra do Eduardo Cunha, que instruiu a composição do texto com uma advogada contratada pelo PSDB por 45 mil reais para a redação do mesmo. Cunha abriu o processo de impeachment na mesma tarde em que o PT disse que votaria pela sua cassação no Comitê de Ética da Câmara. Não fosse isso, caso o PT tivesse sinalizado o oposto, o processo de impeachment jamais seria aceito. Portanto, vá verificar os fatos se quiser contextualizar como esse processo chegou ao plenário da Câmara e do Senado.
    Segundo, o que eu disse sobre 1964 é para acabar de vez com a ideia de que a chancela do Judiciário e inclusive a do STF serve para descaracterizar um Golpe. Os Golpes de Estado no Brasil, TODOS, aconteceram com a anuência, quando não a participação ativa do Judiciário. Portanto, essa tese está errada do ponto empírico.
    O que caracteriza o Golpe é mudança das regras no meio do jogo. Desde 1988, todos os presidentes fizeram o mesmo que a Dilma fez sem nenhuma punição equivalente. Esse entendimento mudou apenas no caso da Dilma. E mudou porque foi coordenado por cima, por um acordo entre as reais elites do poder. Um acordo que contou com a participação ativa do Judiciário, e o apoio da mídia, toda ela, não importa suas rachaduras internas.

  • Alexandre

    Meu caro, Eduardo Cunha apenas estava lá, ele não inventou o fato jurídico. Ele mesmo havia barrado outros – quando ainda era amigo do PT. O voto foi de ampla maioria. O TCU havia rejeitado as contas por 7 x 0. Ele chantageou o PT? Sim, mas não inventou a mentira de Dilma! Misturar 1964 com 2016 é falácia. Quem não respeitou as regras foi Dilma. Assim como Collor. A mídia não tem rachaduras internas, rapaz, tem muito mais diversidade do que você sugere (ou finge acreditar). Os exemplos são muitos, além de Boulos. Mesmo a Folha e o Estadão não concordam em tudo, institucionalmente. Dilma mentiu muito além da conta, ganhou a eleição, mas quebrou o País.

  • Carlos Henrique

    Claro, a Dilma sofreu um processo de impeachment porque ela mentiu. Evidente. Ela, essa mentirosa. A única mentirosa da política nacional. Desde 1500, foi a primeira presidente caçada legitimamente, sem a participação da mídia, de maneira legal, com todo o processo correndo dentro da lei, sem nenhuma interferência indevida, por pessoas acima de qualquer suspeita, porque transgrediu essa regra fundamental da política que é falar a verdade.
    Afinal, todo o político que não fala a verdade nesse país, sofre consequências das mais graves. Não é mesmo?
    Essa estorinha te deixa mais tranquilo? Então acredite nela..

  • Alexandre

    Não a única mentirosa, mas talvez a mais descarada, que ganhou uma eleição ilegítima, pois escondeu números terríveis. Muita gente tomou decisões econômicas baseados no fato de que o governo não mente sobre números oficiais! Você deveria ter vergonha de defendê-la!! A mídia ouviu, à exaustão, todos os lados, inclusive transmitindo o julgamento. Collor, em comparação com ela, foi atropelado como um cão. Quem precisa de tranquilidade e estorinha é você, rapaz!

  • Carlos Henrique

    Se ao menos você conhecesse um pouco de história. Collor foi caçado porque era sustentado com dinheiro das sobras de campanha, administradas pelo seu tesoureiro. Comparar Dilma com Collor sim é falácia. O caso do Collor foi corrupção da mais rasteira, foi receber dinheiro em cash em casa. Não tem absolutamente nada a ver com o caso da Dilma sobre a qual nunca pairou qualquer desconfiança quanto a sua honestidade. Aliás, desconfio que o Golpe que sofreu tem exatamente uma relação com sua honestidade pessoal.

  • Alexandre

    Rapaz, não comparei o mérito, comparei o processo! E o Congresso não julga causas penais! A honestidade de Dilma é colocada em dúvida há tempos. Aguarde o fim das investigações. Ademais, não é nada honesto ganhar como ela ganhou.

  • Carlos Henrique

    QUE investigação, meu caro? Não há nenhuma investigação sobre a Dilma ou na qual ela esteja envolvida. Absolutamente nenhuma. Temer, Aécio, Serra, Renan Calheiros, Cunha, todos os algozes da Dilma foram citados na Lava Jato e outras investigações. E a Dilma não foi citada, mencionada, nem se tornou objeto de nenhuma investigação. Não use má fé para forçar uma razão que você não tem.
    Aliás, ela ganhou as eleições nas urnas, como reza as regras da democracia. E essa foi a razão do Golpe: não há absolutamente nada contra ela, e os canalhas nunca conseguiram ganhar no voto. Jamais houve Golpe mais Golpe que esse. Aliás, lembra a gravação do Romero Jucá? Precisa de mais provas do Golpe?

  • Alexandre

    Não se faça de desentendido; hoje mesmo a Odebrecht acertou a delação com o MPF. Dali sairá muita coisa. Além disso, nem uma autista passaria pelas posições em que ela esteve e não perceberia nada dos roubos de bilhões. Renan não é algos de Dilma! Ao contrário, rapaz! Pesquise um pouquinho. E Cunha já esteve do lado dela e do PT, enquanto interessou a ambos.
    Ela ganhou mentindo. Só ganhou porque mentiu, por isso é ilegítima. Collor também havia ganhado nas urnas. O PT perderia em 2018, como perderá. Aquelas mentiras, por si só, já lhe deveriam render uma cana!
    PS: A gravação do Jucá não prova “golpe” algum, indica apenas que ele era interessado no resultado.

  • Carlos Henrique

    Como sempre, na falta de qualquer prova ou mínima evidência, só resta a mentira e a especulação leviana e desonesta. E especulação autoritária. Como todo Zé Ninguém autoritário, quer ver o inimigo na cadeia. Para os autoritários, um inimigo que não consegue ser vencido nas urnas, só pode ir para a cadeia. Crime, zero. Mas a direita alucinada, sem conseguir votos, apela para todos os recursos possíveis, dentre eles o Golpe mais descarado de todos.
    E novamente você menciona o Collor, de maneira desonesta mais um vez. O Collor foi caçado por corrupção ativa e passiva. Ele foi caçado por um crime objetivo. A Dilma não. Nem coragem de caçar seus direitos políticos os criminosos deram o golpe tiveram. Se você fosse um pouco menos desonesto no debate eu não precisaria repetir isso tantas vezes. Mas sua desonestidade no debate não te deixa opção de ser coerente com os fatos.
    O áudio do Jucá não só mostra que ele tinha interesse não. Mostra o roteiro e a motivação da manipulação das instituições para o Golpe de Estado parlamentar e jurídico.

  • Alexandre

    Rapaz, quero que qualquer um que cometa crimes de corrupção vá para a cadeia, independentemente de partido ou coloração ideológica! Gente de bem não pode ter bandido de estimação! Não houve golpe em Dilma. Ela quebrou as regras para ser eleita, e voltou a quebrar depois de eleita. Eleição é para presidente, não para imperador! Ela cometeu crime de responsabilidade, para o qual há previsão de punição por impeachment na Lei. O processo foi chancelado por todas as instâncias necessárias. Dilma mentiu, fraudou números oficiais, o que é gravíssimo!, e o impeachment saiu até barato para ela. Graças ao Lewandovisky e aos canalhas que o acompanharam. (Também havia canalhas aos montes no Congresso que julgou Collor.) Aliás, o que ela fez, para usar um termo seu a respeito de Collor, foi bem OBJETIVO. Em outro país, ela até poderia ser processada penal ou civilmente, pois muita gente pode ter falido ou perdido o emprego por acreditar na mentira dela. Ela (ou o PT, escolha) só ganhou a eleição por causa dessa mentira, e por causa do apoio do PMDB, que agora querem esconder. (Sim, Temer, Renan, Sarney, Cabral, e mesmo Eduardo Cunha!) Uma eleição sórdida, suja, tão suja quanto o dinheiro que pagou o marqueteiro. (Após abertas as urnas e apurados os votos, veio a sujeira que estava escondida – por ela! – debaixo do tapete. E então o pacote fiscal de 2015, muito parecido com o de agora.) Não duvido, inclusive, que muita gente que votou nela tenha ficado muito decepcionado a ponto de também ter desejado vê-la fora da presidência.
    Autoritarismo é querer ficar no poder a qualquer custo! É financiar um projeto de poder com dinheiro desviado de estatais. É aparelhar o estado e boa parte da sociedade civil. O PT não foi eleito para implantar um programa socializante. Se queria isso, deveria ter sido claro para os eleitores!
    O Congresso não julga crime comum, como corrupção. Collor foi, inclusive, absolvido no STF. E foi impedido por crime
    O áudio do Jucá não mostra, muito menos prova, o que você disse. Você pede provas contra ela, mas não exige provas contra isso ou contra crimes atribuídos a figurões de outros partidos.
    Alucinado é (gente como) você, que se recusa a ver o que está na sua cara! Quer morrer abraçado com o erro? É você o desonesto, não eu! É você o autoritário, não eu!Não consegue explicar as mentiras dela, e nem como ela poderia não ter sabido de nada sobre o petrolão e etc. Você deveria ter vergonha de defender essa gente! Muita gente boa da esquerda já entendeu que é dar um tiro no pé tentar justificar o injustificável!
    PS: Leia os artigos do Gabeira sobre o assunto. Ele é de esquerda e ex-petista (caso ache que isso traria maior isenção) e suficientemente inteligente e honesto para dizer, nas grandes linhas, o que aconteceu ou vinha acontecendo. Até porque conviveu com aquele pessoal.


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