O simulacro perfeito

Entrevista com Henri-Pierre Jeudy sobre o incêndio do Museu Nacional, por Clarissa Moreira para a UniNômade | Trad. Clarissa Moreira

(foto: Philippe Nothomb)

As consequências do incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro são muitas e repercutem em diversos planos e estratos da vida política e cultural brasileira. Em uma breve entrevista, Henri-Pierre Jeudy, filósofo e antropólogo francês conhecido por seu conjunto de obras sobre patrimônio histórico e memória social na cidade contemporânea (tais como La machinerie patrimoniale et critique de l’esthétique urbaine e, no Brasil, Memórias do social e Espelho das cidades) avalia esses desdobramentos. O filósofo foi entrevistado por Clarissa Moreira, arquiteta e urbanista, doutora em filosofia da arte e da arquitetura, membro da rede Universidade Nômade.

Moreira – O quinto maior museu do mundo em termos de acervo, reconhecido pela sua riqueza e memória etnográfica e artística, sem falar do vasto repertório de história natural, se transforma em poucas horas numa ruína e a maior parte dos seus vários milhões de peças é reduzida a nada. Como o senhor vê este acontecimento?

Henri-Pierre Jeudy – O incêndio do Museu Nacional do Rio – o palácio de São Cristóvão onde foi assinada a independência do Brasil – destruiu objetos culturais de grande prestígio, irrecuperáveis apesar dos meios técnicos que hoje temos para fabricar simulacros perfeitos. Como todo evento catastrófico, a violência de tal desastre é um choque para as coletividades mas o sentimento comunitário que surge clama pela recusa absoluta da Fatalidade. As brasas de um símbolo tão grande da história de um povo revela o estado de mal-estar no qual se encontra hoje o Brasil, oferecendo a visão de uma destruição incomensurável dos laços de comunidade. Nas mentalidades coletivas, o infortúnio ocorrido “acabaria por acontecer”. Era, por assim dizer, previsível não apenas pelas falhas imperdoáveis de segurança, mas também em razão do desdém da classe política no que diz respeito à cultura. Podemos imaginar que um tal evento, que nada deve ao acaso, se torna a figura emblemática de uma esperança de superar as representações comuns do declínio.

Moreira – A Europa tem sido o palco de muitas guerras e destruições. No Brasil tivemos grandes destruições planejadas na cidade do século XIX para dar lugar à do século XX. Mas a perda do Museu Nacional não parece, em certa medida, uma perda de guerra, além de uma perda programada?

Henri-Pierre Jeudy – É possível comparar a destruição do Museu do Rio com a de Palmyra [NE: na Síria, demolida pelo ISIS em 2015]? É óbvio que a destruição de símbolos culturais continua sendo uma maneira universal de minar a identidade de um povo ou de uma nação. Em seu livro, Palmyra, Paul Veyne mostra como a guerra produziu uma catástrofe do Patrimônio Universal, mas a sua narrativa coloca entre parênteses as circunstâncias políticas da tragédia. O autor trata, à luz da história e do poder simbólico de sua duração, a destruição desastrosa de ruínas monumentais como um fato que se inscreve fora do tempo presente. Durante as guerras, a destruição de lugares históricos é uma forma de enfraquecer o poder simbólico de um país, enquanto a “perda programada” de um monumento nacional é o resultado da vontade política interna. Ela se traduz por um ato ofensivo de ocultação da história de um país, de uma nação.

Moreira – Este acontecimento foi sentido no Brasil como uma catástrofe. A catástrofe, como você mostrou claramente no seu livro La machinerie patrimoniale, não é também um objeto patrimonial possível?

Henri-Pierre Jeudy – A catástrofe deixa vestígios… E estes são os vestígios do fim de uma história. Eles devem ser preservados “do jeito que estão” para tornar o evento memorável para todo o sempre? É verdade que hoje a restauração se tornou uma obsessão. As imagens dos desastres, se forem preservadas, são prejudiciais às crenças coletivas no futuro? No Japão, como em muitos outros países, a conservação dos vestígios destrutivos de um terremoto foi feita a partir de uma perspectiva patrimonial. Um Museu de Falhas foi aberto em 1999 e cada visitante pode ver as consequências do terremoto. Na entrada do museu, uma montagem cenográfica foi criada como uma cena inesquecível: a estrada está partida, erguida por um dos lados e os restos de um reboque colocado em uma das extremidades são precedidos por uma série de cadeiras de rodas para deficientes físicos. A cena está lá para mostrar toda a extensão do drama … Pode-se até imaginar que as atuais ruínas do Museu Nacional do Rio, preservadas no estado em que estão, se tornem um novo” símbolo, mas é difícil acreditar que uma megalópole possa manter a imagem dos efeitos passados de seu declínio em tempos de negligência política. Tal alegoria teria uma função moral particularmente autoritária.

Moreira – Dada esta traição do sistema de transmissão museográfica – cuja causa é multifacetada e realmente difícil de reduzir ao jogo político atual, parecendo se dever a algo muito mais antigo e estrutural, enquanto bem cultural brasileiro de maior importância e valor – a questão de o que fazer começa a emergir. O atual Prefeito do Rio faz referência à memória do Império Português, a fim de pensar em uma reconstrução. Memorial do desaparecimento de objetos testemunhas dos tempos antigos, de outros mundos, povos e vidas humanas e animais – como querem muitos – ou reconstrução em honra da memória da etapa imperial brasileira. O que deve ser considerado para imaginar um futuro para essas ruínas?

Henri-Pierre Jeudy – Hoje, a construção de réplicas tornou-se uma maneira de tornar a história eterna, sempre a salvo. Na França, as famosas grutas – Lascaux, Chauvet – tem as suas próprias réplicas e, como por encantamento, o “virtual” faz esquecer o “falso”, o “virtual” é preferível ao “real” para os prazeres da percepção. O simulacro perfeito das grutas de Lascaux são portáteis, adaptáveis a qualquer território … Se consideramos possível toda reconstrução ao idêntico de monumentos e sítios arqueológicos, pode-se imaginar que os efeitos desastrosos da destruição permanecem temporários e que os símbolos culturais encontram novo prestígio graças ao poder de sua abstração, uma vez que nunca serão aniquilados permanentemente. Neste sentido, o poder ilimitado de restauração do patrimônio histórico, legitimada por um consenso ideológico universal, nos permite pensar que, se a autenticidade de um sítio ou monumento original é susceptível de desaparecimento, sua reconfiguração sempre possível garante a proteção eterna daquilo que ela representa simbolicamente. A réplica idêntica é uma garantia para a durabilidade dos símbolos culturais. Resta saber se, durante as guerras ou atentados, os atacantes, os terroristas, atacarão tais falsificações ou as compreenderão como farsas culturais. Com a réplica idêntica, estamos longe do trompe-l’oeil, uma vez que aquele oferecia a bela aparência, que não se deseja enganosa, de uma realidade originária do local ou monumento.

Moreira – O Rio de Janeiro foi a sede de grandes eventos recentemente. Calcula-se que mais de 40 bilhões de reais (cerca de 10 bilhões de euros) foram investidos no período. A construção do Museu do Amanhã, projeto do arquiteto Santiago Calatrava, teria custado cerca de 200 milhões de reais (cerca de 50 milhões de euros) sem contar com seus custos exorbitantes de manutenção. No dia seguinte aos jogos, encontramos o Rio em queda livre, com uma crescente população de rua, falência da saúde pública, falta de pagamento de funcionários públicos. De fato, uma política internacional está em curso, no sentido da exploração do “efêmero” na cidade, citando seu livro Crítica da estética urbana, da qual os megaeventos de algum modo, fazem parte. Qual a saída para as cidades?

Henri-Pierre Jeudy – Deveríamos acreditar que no Brasil o futuro é visto como uma negação implícita do passado? O Museu do Amanhã – o museu do futuro – é um símbolo recente da figuração fictícia do futuro da cidade do Rio de Janeiro. Os investimentos financeiros que gerou, como em muitas outras construções futuristas, vieram à custa dos custos de manutenção e renovação dos edifícios mais antigos, incluindo o Museu Nacional do Rio. Também pode ser considerado um estado de espírito: os políticos impõem sua própria concepção de cultura ao esconder a história passada em favor de um tempo presente dominado no mundo das artes e arquitetura, pelo “reinado das Marcas”. Essa visão economicista da cultura, que corresponde às mentalidades do mercado de arte internacional, permite cultivar a expressão da soberania absoluta, alimentando-se, como o atual prefeito do Rio, uma nostalgia pela era imperial. Portanto, a razão para abandonar os símbolos culturais do passado vem não apenas de um problema de gestão financeira, mas principalmente da ausência de existência atribuída ao passado. Para os evangélicos, por exemplo, o patrimônio, são eles que o criam.

Moreira – Os milhares de cidadãos que tomaram as ruas em 2013 são muitas vezes vistos como responsáveis por tornar possível a queda do governo de esquerda e todos os desastres que se seguiram são muitas vezes atribuídos à falta de visão daqueles que se atreveram a discordar da política de desenvolvimento da época. De fato, em 2013, encontramos vários afetos ou movimentos que muitas vezes lembram Maio de 68, como se essas energias sempre tivessem permanecido ativas, mesmo que subterrâneas na cultura, uma espécie de ressurgimento que novamente foi rapidamente esmagado. O fogo do museu parece simbolizar a derrota dos movimentos de rua, bem como um sinal da necessidade real por trás das manifestações. De fato, a ruína deste museu dá muito o que pensar. Você vê outras possibilidades de exploração?

Henri-Pierre Jeudy – É claro que a fotografia das ruínas ainda fumegantes do Museu do Rio poderia gerar um entrelaçamento de projeções simbólicas, assim como o surgimento de uma súbita aparição do inconsciente coletivo. Esta visão brutal e única de uma relíquia inesperada, pode-se dizer uma chama nova, se presta a muitas interpretações cuja finalidade explicativa não deixa de se fundar sobre a ressurgência de energias comunitárias estimuladas pela esperança de transformação da sociedade. Como uma “ruína ao inverso”, essa aparição arqueológica de um instante dá à história toda a sua espessura. Figura dupla do desastre: uma face representa a perda irremediável de objetos de prestígio que escreveram a história e, do outro lado, a outra face que oferece a ostensiva visibilidade das “novas ruínas”, reminiscências das energias coletivas que também traçam a história.


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