Biden e a eleição de Lula

 

Bruno Cava

 

Além de Marina, Tebet, FHC etc, que fizeram a diferença para a vitória eleitoral apertada de Lula no domingo passado, é importante mencionar a atuação do governo Biden em garantir o resultado eleitoral das urnas. Sobre isso, coloco abaixo três links, da Reuters, Foreign Policy e Folha de SP, que narram uma sequência de recados, visitas oficiais e extraoficiais, que os emissários do presidente Biden realizaram com membros do governo, generais e o próprio Bolsonaro, entre julho de 2021 e outubro de 2022.

A pressão entre governos não foi só política, como também envolveu questões comerciais e compras de armas, no quadro de maior assertividade da política externa do Partido Democrata.

Segundo a Reuters, depois que os trumpistas perdedores foram para o tapetão em janeiro de 2021, com a invasão do Capitólio, Biden estava convencido (pelos informes) que havia grande possibilidade de Bolsonaro recusar o resultado das urnas, especialmente se a margem fosse pequena. Biden decidiu se antecipar e enviou em missão à Brasília o seu próprio diretor da CIA, um diplomata de formação.

Foi o fator decisivo? Não acredito que tenha sido. Contribuíram dois outros fatores internos: 1) a viscosidade das instituições brasileiras, 2) o fato de direita e extrema-direita terem se consolidado no sistema político, com vários representantes eleitos a parlamentar e governador.

De qualquer modo, Biden ajudou para desarmar a bomba relógio da derrota de Bolsonaro nas urnas? Ajudou. O quanto ajudou com precisão saberemos no futuro, quando os documentos forem desclassificados.

O meu propósito aqui não é apontar como acontecem ingerências mais ou menos explícitas de outros estados em processos eleitorais, sobretudo os conturbados, mas como nem sempre a ingerência é negativa. No nosso caso, contra as pretensões de deslegitimação do processo eleitoral, essa foi uma interferência positiva, desincentivando quem esboçava derivas golpistas.

No Brasil em 2022, houve um alinhamento (contingente) da vontade por democracia de garantir o resultado vitorioso de Lula, com a linha de ação do atual governo americano, dada por um misto de interesses materiais e valores imateriais.

Agora, imagine que um “anti-imperialista” poderia dizer que teria sido melhor que Bolsonaro não saísse, de modo a contrariar os planos dos norte-americanos. Afinal de contas, Bolsonaro está mais próximo do modelo antiliberal e antidemocrático que hoje se aprofunda em países como Hungria ou Rússia. Como contrariar o modelo neoliberal ocidental é a causa maior e o “imperialismo ianque” o pior, seria melhor o novo governo não se aproximar da esfera de influências de Biden/EUA. Nesse cálculo de realismo geopolítico, valores como democracia, justiça e direitos seriam secundários (ou meramente ideológicos), sem falar no desejo dos próprios brasileiros, em relação ao teatro superior das correlações de força entre grandes potências, esse sim, o Grande Jogo.

Agora que estamos vivendo na pele o que isto significaria, dá pra perceber como é perverso o raciocínio. Mas é o mesmo utilizado pelo “anti-imperialista” ao sustentar que, como o imperialismo americano é o inimigo maior, então é melhor alinhar-se com a Rússia do que com os EUA na guerra na Ucrânia. Mesmo que não seja o melhor para os ucranianos, nem respeite as opções democraticamente tomadas na Ucrânia. O que importa é contrariar os interesses da potência que atualmente estaria buscando reconstruir a sua hegemonia.

 

  1. Antes que alguém que tenha faltado nas aulas de interpretação de texto na escola venha confundir este texto com a defesa genérica da política externa do governo Biden: só a análise concreta da situação concreta vai dizer de que modo os alinhamentos e realinhamentos podem ser positivos ou negativos, para este ou aquele sujeito situado.