Babel contra multidão

Por Fábio Py, doutor em teologia pela PUC-Rio

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A unidade da fé em Deus, que constantemente queremos criar (ou temos de criar porque, em certo sentido, dela necessitamos), não se encontra nos textos, nem na coletânea de escritos, tampouco no cânon; ela se encontra unicamente em nossa perspectiva. Nós transformamos as afirmações bíblicas em afirmações que possam nos orientar e que se ajustem ao nosso crer e fazer” (Erhard Gerestemberger, Teologias no Antigo Testamento, 2007, p.9).

Multidão é o nome de uma imanência. A multidão é o conjunto de singularidades” (Antonio Negri, “Para uma definição ontológica da multidão”, Lugar Comum, n.19-20, p.19.

Queria estar na companhia dos irmãos e irmãs escutar/refletir sobre “Teologias da Multidão”, mas de fato, a UENF em Campos dos Goytacazes, torna sério o desafio da distância. Imagino que meus amigxs da mesa irão se preocupar em ler textos ligados à memória do Novo/Segundo Testamento, de Jesus e Paulo. Nenhum problema. Na verdade, ao contrário. É imenso o desafio. Pois, temos de lembrar que o cristianismo é memória dos apóstolos e apóstolas, discípulos e discípulas, que fizeram “multidão” para resistir. Sim, porque o cristianismo dentro do império romano era uma religião minoritária no século I. Ganhou proporção somente no século III, quando o imperador, para não rachar seu império, assumiu como religião oficial.[1]

Logo, a sobrevivência do cristianismo nos dois primeiros séculos mostra as esforço de articulação e resistência dos seguidores de cristo mediante os cercos do império. Ao mesmo tempo, não se pode negligenciar o ‘truque’ do imperador Constantino, que ao se ‘converter’ ao cristianismo (Paul Veyne [2]), fez-se marco da derrocada do cristianismo “dos subalternos, dos vencidos” (Benjamin [3]) “das multidões” (Negri [4]). Por conta dessa derrocada, queria me deter rapidamente em um instigante texto da tradição cristã encontrado no livro de Gênesis. Até para não perder de vista a esperança do diálogo com tradições monoteístas (judaica e árabe) tão significativas no contexto ocidental. [5]

A Babel bíblica

Passando os olhos sobre o texto de Gênesis 11,1-9, conferimos a famosa narrativa da Torre de Babel. Essa passagem, segundo estudiosos [6], é uma narrativa de trabalhadores e trabalhadoras camponeses da província de Judá que reconstruiam a cidade após a derrocada do império Babilônico. Estão em processo de trabalho forçado com os setores politicamente apoiados pelos persas para reconstruir a província de Judá/Yehud. Uma questão instigante a respeito desse texto bíblico é que ele ao mesmo tempo sucede e precede genealogias. Como sabido, genealogias são exposições de pessoas e nomes dos antepassados que, no caso do Antigo Testamento, se chamam de: “toledotes”. “Toledotes” significam “genealogias”, “gerações”, ou “nascimentos”. Mas por ser um termo chulo e feminino prefere-se a palavra “barrigadas”! (Milton Schwantes [7]).

Portanto, o texto da Torre de Babel emerge entre as narrativas das “barrigadas” do povo de Judá. O fato é que o texto da Torre de Babel parece ‘flutuar’ no meio dos muitos nomes de pessoas, clãs e famílias. Genealogias são evocações do comunitário. Sim, porque, não são pessoas, mas sim famílias, clãs! Conjunto de famílias e clãs se faz multidão. Na verdade, a mensagem do texto é simples. Vamos a ela. Primeiro, havia apenas uma língua na terra, um tipo de fala única (v.1).  Por tal motivo, os clãs acham por isso facilmente uma boa planície para fazer cidade [8]. É um pouco óbvio isso, não!? Mesma língua, poucas divergências, logo, faz-se a melhor forma de viver as cidades. Onde se tem tudo perto. Começam o processo de construção dela. Os escritores da Torre de Babel ensinam até como fazer uma cidade: “deve-se queimar bem o tijolo”, colocar “betume” (espécie de cimento antigo) e “cal” (pintura – v.3). Sabiam fazer os muros mais resistentes para bloquear as pessoas. Muros não seriam feitos de “pedra sobre pedra”, mas com “betume” e “tijolos queimados” [9] – assim os  escritores camponeses nos ensinam como faziam seus muros.

Agora, pelo fato de falarem a mesma língua, cresce a vontade de fazer algo grande. Não basta que seja uma cidade, ela tem de ter uma torre – no hebraico: “migal”. Aqui vai o detalhe brilhantemente descoberto por Milton Schwantes [10]. “Migal” não é apenas uma torre. Mas é uma torre sitiada, militarizada. Uma torre de vigilância, contava com exército. Lá de cima, deviam procurar o melhor lugar para apontar sobre o povo. Quem ocupava os postos mais ao alto eram aqueles que ocupavam os cargos da governo. Portanto, o termo “migal”, na narrativa da Torre, indica que era uma cidade-estado militarizada. Assim, a língua em comum serviu ao projeto de centralização militarizada sob a ilusão de tocar os céus. O céu é o limite! (v.4a). Arrogância e “prepotência são o ônus dos administradores e construtores das cidades-estados[11] antigas e também dos de agora. O texto de Babel deixa ‘no ar’ que mesma língua não representa apenas facilidade de comunicação. Mas seria também chave/permissão para unificação de projetos. Ora, diziam os governantes, que se nomeie um nome para plasmar a multidão que habita a cidade! Pois, acima de tudo, a multidão dos que lá habitavam era perigosa. E perigosa justamente porque juntos formavam a força que poderia possibilitar a mudança. Por isso, a militarização, pois de cima poderiam mirar e sufocar mais facilmente os descontentes heterodoxos.

Na sequência do texto há uma quebra [12]. Pois, a partir do v.6, não é o homem-urbano que age. Do v.6 até o v.9, são os “Elohim”, os deuses, eles que promovem as ações. [13] Essa parte é absolutamente teológica. Melhor, tem o plano das teologias! O texto, agora sob a inspiração da divindade judaico-palestina, sentencia: mesmo “povo”, “mesma língua”, “não teria restrição” (v.6) aos planos/ações. Absolutamente corretos! Para eles, o povo, os deuses (“Elohim”) desceram para confundir, a fim de que não se entendesse a linguagem do outro, pois, não se pode conviver numa sociedade com mesmo projeto e mesmas ideias: sem crítica e autocríticas. Sem o contraditório! Assim, os escritores (munidos pelos deuses) indicam que a forma de lutar contra as cidades-fortalezas dos impérios é apostar na diversidade das falas, nos diferentes modos de pensar e agir. Na diferentes ideias florescidas na multidão. Assim, cessar-se-ia de “edificar a cidade” – aquela absolutamente fortificada-militarizada. Nesse texto-memória camponesa do pós-exílio persa [14], exalta-se que a confusão de línguas, cada qual a seu modo, seria a melhor forma de se viver sobre toda terra. Portanto, para que se acabe com uma cidade fortificada-militarizada, ponta dos impérios, a sabedoria bíblica evoca o caminho mais simples. Contra a potência do império babilônico-persa, diferentes línguas. Por isso, Antonio Negri escreve “Tal como a carne, a multidão é pura potência[15]. Contra império, um vendaval de teologias para que se confundam os planos e se interdite as certezas imperiais! O texto diz que os deuses desceram. Mas parece que eles tomaram as pessoas das multidões para que respondessem ao projeto plasmador imperial de Babel. Pessoas da multidão (trabalhadores e trabalhadoras) deveriam assumir seu lugar diverso anti-imperial. Praticando o aquilo que seria o mais importante das diferentes teologias da multidão: a desobediência contra a cidade-estado de Babel-Babilônia.

Teologias da multidão, teologia dos deuses (“Elohim”) [16], expressas a partir da linguagem diversa dos povos escravizados pelos impérios, seriam a maneira mais simples/sorrateira de cingir os próprios impérios. Uma forma de implodir os impérios por dentro, o que a priori não é uma medida violenta. Não denota o uso de uma estratégia de guerra ou militar para implodi-lo. É mais simples que um estratagema. Muito mais simples. É só cada qual expressar da sua forma/língua desobedecendo às ordens e “as tecnologias do império[17]. Ora, se a ordem vem na língua única imperial, as respostas das multidões devem ser nos diferentes léxicos, logo singulares. A sabedoria bíblica dos camponeses construtores da província de Judá genialmente indica que os projetos imperiais não suportam o diferente, o plural.

A Babel de hoje

Assim, o próprio império condiciona seu principal problema: a multidão das pessoas é a força motriz de sua própria derrocada. Os trabalhadores e trabalhadoras invisibilizados, como multidão, expressando línguas, teologias, seriam dinamites contraimpérios simbolizados por Babel. Melhor dizendo: as pessoas, as falas e o pensar teológico dos milhares e milhares é que podem permitir a destruição dos impérios. Não a violência de um grupo ou de outro império. Afinal, império ou pequenos grupos formam outro império. Nisso, a sabedoria bíblica é sagaz. Muitas vozes e muitas faces ajudam a não-identificação do rolo compressor imperial, logo facilitam o esfacelamento da grandeza transnacional. Até mesmo a do símbolo bíblico da arrogância citadino-militarizada dos maiores impérios que a humanidade viu, a Babilônia de Nabucodonosor. Vai ver seja por isso que, após o texto da Torre de Babel, após a vitória dos trabalhadores e trabalhadoras empoeirados juntos aos deuses e deusas se retorne as “genealogias” / “barrigadas”.

As “barrigadas” seriam exemplos de judexs-palestinxs que lutaram contra os impérios que tanto devastaram seus territórios. Temos então em Babel um texto que é resquício de resistência e insubmissão, nutrido a partir das diferentes vozes e tons das teologias que atravessam as multidões. Aos deuses e deusas, toda a glória pelo empoderamento diário dos trabalhadores e trabalhadoras na resistência ao império do capitalismo mundial.

 

Fábio Py é pós-doutorando em Políticas Sociais pela UENF, doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), com estágio sanduíche no Centre d études Interdisciplinaires dês Facts religieux (CEIFR), no École des Hautes em Sciences Sociales (EHESS).

NOTAS

[1] Paul Veyne, Quando nosso mundo se tornou cristão, São Paulo: Civilização Brasileira, 2011, p.56-58.

[2] Op. cit.

[3] Para “História dos vencidos” vide, Walter Benjamin, Rua de mão única, São Paulo: Cultrix, 1998, p.12-13.

[4] Antonio Negri, “Para uma definição ontológica da multidão”, Lugar Comum, n.19-20, p.18-30.

[5] Hans Kung, O projeto de uma ética global, São Paulo: Paulinas, 1995.

[6] Claus Westermann. Genesis. In: Biblischer Kommentar Altes Testament, vol. 1/1, 1974, p.80-91 e Otto Groebel, Die Urgeschichten, ln: Schriftauslegung, Stuttgart, 1988.

[7] Milton Schwantes, Projetos de Esperança: meditações a partir de Genesis 1-11, São Paulo: Paulinas, 2001, p.78-81.

[8] Claus Westermann. Genesis. In: Biblischer Kommentar Altes Testament, vol. 1/1, 1974, p.80-91.

[9] Milton Schwantes, Projetos de Esperança, 2001, p.78-81.

[10] Op. cit.

[11] Giorgio Agamben, “Bataille e o paradoxo da soberania”, Revista de literatura, n.5, Florianópolis, 2005.

[12] Quem repara muito isso são: Claus Westermann. Genesis. Em: Biblischer Kommentar Altes Testament, vol. 1/1, 1974, p.80-91 e Milton Schwantes, Projetos de Esperança, 2001, p.78-81.

[13] Otto Groebel, Die Urgeschichten, ln: Schriftauslegung, Stuttgart, 1988.

[14] Nesse detalhe vamos contra o professor Milton Schwantes que acredita que o texto seja do exílio babilônico, vide, Projetos de Esperança, 2001.

[15] Antonio Negri, “Para uma definição ontológica da multidão”, Lugar Comum, n.19-20, p.19.

[16] Erhard Gerestemberger, Teologias no Antigo Testamento, São Leopoldo: Sinodal, 2007, p.11-14.

[17] Michael Hardt e Antonio Negri, Império, Rio de Janeiro: Record, 2001, p.74.


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