Trump, business as usual

Por Andrea Fumagalli, em Effimera, 11/11/2016 | Trad. UniNômade

trump2

O resultado das eleições americanas, com a vitória de Donald Trump, foi recebida por muitas mídias de esquerda e de movimento com um misto de indignação, devido a posições abertamente racistas e misóginas do magnata americano. O fato confirma que a esquerda, deslocando-se ao centro e trocando piscadelas com as empresas multinacionais e os poderes de Wall Street, está destinada a sucumbir. Isso se deve à incapacidade dela ser capaz de exprimir o incômodo e o rancor, cada vez maiores, de uma parte do povo trabalhador, hoje enfraquecido e empobrecido pela crise econômica. Ocupando o espaço deixado pela “traição” da esquerda “reformista”, o populismo encontra um terreno fácil para insinuar-se no eleitorado que compõe a classe trabalhadora, promovendo posições protecionistas, nacionalistas e xenófobas: um populismo que pode, segundo alguns, erigir-se a intérprete em potencial para uma nova luta de classe. Esse diagnóstico já havia aparecido depois do referendo inglês sobre a Brexit: e se repete agora numa eleição americana que premiou quem bradou contra os efeitos da globalização e do poder das finanças.

Essa leitura, entretanto, nos parece simplista demais. Somente se permanecermos sobre a superfície dos fenômenos em questão, é que tal linha de análise poderia soar verossímil e razoável. Contudo, se formos um pouco mais fundo, outros elementos aparecerão que devem ser levados em conta.

A classe trabalhadora que votou Trump (e no Reino Unido, a favor da Brexit) é principalmente branca e masculina, com idade entre 40 e 60 anos, uma faixa que nas últimas décadas viveu na pele os efeitos provocados pela crise, seja em termos quantitativos, seja qualitativos. As estatísticas do Bureau of Labour Statistics (BLS), nos informam que hoje nos Estados Unidos a força de trabalho nos setores manufatureiros (operários e funcionários) não supera 10% do total, enquanto no complexo industrial (compreendendo as cadeias produtivas da produção de energia, extrativas e construção civil) não chega a 15%.

Na sequência de tamanha redução do emprego, seguiu-se uma desclassificação em termos de reconhecimento e status social. Com a crise da grande indústria, aconteceu com frequência de regiões urbanas se transformarem em zonas rurais, as fontes de renda se diluíram e se tornou cada vez mais importante recorrer à poupança, a fim de propiciar ao menos um padrão de vida digno. Essa fração social rebaixada perdeu a esperança na ascensão social, cuja promessa animava a geração anterior.

Porém, diferentemente do que no passado (assim como, ainda que em menor medida, se deu na Grã Bretanha), os fundos para onde converge a poupança do trabalhador são geridos pelos mercados financeiros e se convertem, diante da redução da renda do trabalho, num componente cada vez mais central para o orçamento familiar.

Noutras palavras, o padrão de vida dessa classe média empobrecida está ligado cada vez mais à dinâmica das finanças, tanto como gestora dos fundos do trabalho e da seguridade social, quanto através das várias formas de endividamento. Isto vale, evidentemente, também para os aposentados.

Podemos dizer, então, que o biopoder das finanças se exerce num grau relativamente maior sobre esses estratos sociais. Isto poderia parecer um paradoxo, uma vez que esse componente social é a carne viva que fora fustigada diretamente a partir da crise das finanças de 2008 (subprimes), tendo sido a principal vítima da especulação financeira. A mesma da qual depende. Este paradoxo é um bom exemplo de como funciona a subsunção vital às lógicas financeiras do capital.

Sobre isso, queremos lembrar o que aconteceu há mais de 20 anos, quando começou a revolução zapatista em Chiapas. Logo em seguida, em janeiro de 1994, a assinatura do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) teve de ser adiada, provocando efeitos negativos sobre os fundos de pensão de trabalhadores californianos, que tinham apostado na revalorização do peso mexicano (que, ao contrário, desvalorizou no dia do adiamento em mais de 20%). O descontentamento foi tamanho que chegaram  a ser organizadas manifestações e tomadas de posição “sindicais” contra a sublevação zapatista. Era demonstrada, desse modo, a capacidade dos mercados financeiros de facilitar (ou melhor, incitar) o processo de divisão internacional do trabalho, pondo os trabalhadores americanos contra os mexicanos.

Como sabemos, Trump jogou muito com esse fator para capitalizar eleitoralmente. Mas isto não significa que ele, que no discurso se colocou como paladino contra o poder das finanças, queira realmente trabalhar para reconfigurar esse poder. Dois fatos nos indicam o contrário.

No site oficial da campanha de Trump, há pouca informação sobre quais são realmente os pontos centrais do programa para o novo governo, com maioria absoluta republicana. Mas um ponto, em particular, está claro: a vontade de abolir o Dodd-Frank Act. Esta é uma legislação abrangente, pretendida pela administração Obama, voltada a instituir uma regulação mais estreita e completa das finanças americanas, promovendo simultaneamente a tutela dos consumidores e do sistema econômico estadunidense.

Os objetivos declarados são afastar a possibilidade de surgimento de novas bolhas, como a que levou à crise dos subprimes, e evitar o acúmulo de riscos excessivos que no final são suportados pelo contribuinte americano. Dessa maneira, se pretendia promover uma maior transparência nos vários mercados financeiros.

A eficácia dessa medida foi praticamente nenhuma. Mas certamente a abolição desejada por Trump assume um valor altamente simbólico: marca a liberação de caminho para o mesmo poder financeiro que ele não cessou de declarar que queria combater.

Mas há mais do que isso.

Segundo as últimas revelações da imprensa, no cargo de Ministro do Tesouro (o cargo mais importante junto de gestor da Federal Reserve, que definem as linhas de política econômica dos Estados Unidos), Trump está sinalizando a nomeação de um executivo da JP Morgan, Jamie Dimion, uma indicação ao redor do que giram os nomes do ex-banqueiro da Goldman Sachs, Steve Mnuchin, e de Carl Icahn, 43º homem mais rico do mundo segundo a revista Forbes, um investidor famoso em todo o mundo econômico por sua atividade como corporate raider (isto é, quem adquire uma empresa para fracioná-la e vendê-la com o máximo lucro pelas costas dos empregados – na cara da classe trabalhadora!), não por acaso uma atividade que vem sendo objeto de controvérsias.

O que dizer? Paradoxalmente, Wall Street pode se tornar protagonista com TRump mais ainda do que poderia vir a ser com Clinton! E volta a ser protagonista com a fina flor de seus tubarões! Trump fez da bandeira contra a oligarquia de Wall Street um de seus cavalos de batalha eleitoral. Uma vez eleito, revela-se como um dos mais fiéis aliados da mesma Wall Street. E, certamente, não houve grande oposição a Trump depois da eleito, por parte desses poderes, na verdade, rapidamente as reações dos mercados financeiros foram no sentido contrário, numa reacomodação.

O resultado das eleições americanas não pode surpreender-nos e este não pode ser lido como um momento de ruptura. Num contexto eleitoral em que o voto é fortemente influenciado pela classe social a que se pertence não poderia ser diferente. Não é por acaso que o percentual de votos entre as classes sociais mais pobres — o proletariado das periferias e guetos e as minorias étnicas (o verdadeiro reservatório da força de trabalho a baixo custo, pelo menos não branca, desde os McJobs aos trabalhadores do terciário retraído — com rendimentos e precariamente bem abaixo da ex-aristocracia operária branca) tenha chegado perto de 30%.

Desde sempre, o presidente dos EUA é expressão da oligarquia dos poderes, um poder amiúde atravessado de lutas intestinas, rixas e conflitos os mais diversos, mas, em todos os casos, internos aos poderes dominantes. Certamente, Hillary também era expressão desse círculo de poder, como também o foram os demais presidentes americanos, inclusive Obama. Mas Hillary era mulher e sopesemos o fato que este dado particular não é para ser subestimado numa cultura americana ainda impregnada de sexismo.

Nada de novo sob o Sol, portanto.

Cabe, apesar de tudo, ter em conta que as posições populistas, embora hoje se apresentem como expressões antissistêmicas, na realidade representam uma das formas para melhor manter o atual sistema de poder.

 

Andrea Fumagalli, professor e economista, reside a Milão, é autor de vários livros sobre biocapitalismo, moeda do comum e a dimensão econômico-financeira das lutas e subjetividades antagonistas.


Mostrar
Ocultar